Em que acreditar?

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Em que acreditar

Um estudo sobre a TRH (terapia de reposição hormonal) que estava sendo feito nos Estados Unidos foi interrompido por encontrar, pequenos, mas significativos aumentos nas taxas de doenças do coração, câncer de mama, AVC (acidente vascular cerebral) e embolia pulmonar. Estes dados foram divulgados e estampados nas capas dos maiores jornais e revistas do mundo, deixando em polvorosa as mulheres que fazem reposição.

Esta pesquisa, iniciada em 1997, mostra os resultados de um determinado tipo de TRH, e usa uma dosagem específica do remédio. Para explicar o que isto significa, trocando em miúdos, o Prof. Dr. George Dantas de Azevedo, Prof. Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, detalha o estudo (no link considerações sobre o estudo) e, mais importante, conta o como devemos encarar estes resultados.

"Os resultados apresentados referem-se exclusivamente a uma combinação de hormônios, constituída de estrogênios eqüinos conjugados (0,625 mg/dia) associado a acetato de medroxiprogesterona (2,5 mg/dia).", conta o Dr. Azevedo, que completa: "Além disso, existem hormônios mais naturais do que os empregados nesse estudo, diferentes combinações hormonais e vias de administração alternativas, como os patchs transdérmicos, géis para aplicação cutânea, implantes subcutâneos e compostos para administração vaginal."

Isto quer dizer que o estudo condenou um determinado tipo de tratamento, dentre os muitos empregados e, numa dosagem específica. "Assim, devemos ser cautelosos na interpretação dos resultados do estudo WHI, uma vez que eles não podem ser generalizados e aplicados a todas as formas de terapia de reposição hormonal no climatério."

"Além das diferenças quanto ao tipo de combinação hormonal, tipo de hormônios empregados, via de administração, etc, devemos considerar também a dose utilizada", afirma Dr. Azevedo. Há atualmente uma tendência para prescrição de um tratamento chamado TRH de baixa dosagem, pois diversos estudos têm apontado que os benefícios para o osso, melhora dos sintomas vasomotores e da atrofia urogenital podem ser conseguidos com esquemas de TRH contendo metade da dose usada no estudo americano.

Se você está fazendo o tratamento, ou mesmo toma algum dos remédios citados nas reportagens, não se desespere. A primeira atitude a tomar é ter uma conversa com o seu médico, ele é quem sabe o que pode ser o melhor para você. Cada caso é diferente, esta combinação de remédios usados, por exemplo, é mais indicada a mulheres que possuem o útero, portanto, leve em consideração que outros problemas de saúde que a paciente já tenha podem ser um diferencial na hora de determinar o tratamento adequado. A faixa etária das mulheres que se dispuseram a participar também é relativamente alta, pense que a menopausa começa, em muitos casos, antes dos 50 anos e que deve ser considerado um tratamento gradativo e de acordo com as necessidades de cada uma.

Mas e se é comigo? O que fazer?

Bom, o conselho do Dr. Azevedo é exatamente o de procurar o médico, sentar e conversar. Deve-se pesar os prós e contras do tratamento para, então, tomar uma decisão. "Acredito que a terapia de reposição estrogênica continua tendo o seu papel dentro da assistência à saúde da mulher no climatério. Existem mulheres que se beneficiam bastante dessa terapia, para as quais a suspensão do uso traria inconvenientes significativos e piora da qualidade de vida. O que precisamos realmente é ter mais critério na hora de indicar a TRH, discutindo amplamente com a mulher os riscos e benefícios do tratamento, fazendo-a participar da decisão terapêutica. A conduta precisa ser individualizada, considerando a análise dos fatores de risco associados e alternativas, como o emprego de baixas doses hormonais, hormônios obtidos de fontes naturais, vias de administração diferentes da oral e o uso de outras drogas como os fitoestrogênios, tibolona, raloxifeno, bifosfonatos, cálcio, etc."

Dados epidemiológicos:

- Estima-se que 12,3 milhões de brasileiras estejam no climatério;

- 66% das mulheres, com 45 anos ou mais, residentes nas principais capitais do país nunca fizeram a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) e que 73% estão na menopausa.

- A estimativa para a população feminina urbana do Brasil é de cerca de 7,7 milhões de mulheres. A maior parte das usuárias de TRH se concentra na região sudeste do Brasil, com 58%. A região de maior incidência de uso de TRH é a Centro-Oeste, com 21%, e a menor é a região Norte, com 6%. Nas regiões Norte e Sul, a incidência de uso é maior nas capitais, enquanto na região Sudeste a maior proporção de uso se dá no interior dos estados. Tanto na região Nordeste como na Centro-Oeste as incidências de uso entre residentes nas capitais e no interior são praticamente iguais.

Quanto à utilização de Terapia de Reposição Hormonal (TRH), apenas 15% das mulheres faz uso regular, correspondendo à cerca de 2,2 milhões de usuárias.

Pesquisa realizada pelo Instituto Gallup.

Considerações sobre o estudo

O Women's Health Initiative (WHI) foi um grande estudo realizado nos Estados Unidos, que envolveu cerca de 16.600 mulheres saudáveis, na faixa etária entre 50 e 79 anos, onde um grupo de mulheres recebeu terapia de reposição hormonal (TRH), enquanto o outro grupo recebeu placebo (comprimido inerte), sendo comparados os resultados observados nos dois grupos. Os pesquisadores planejavam fazer seguimento dessas mulheres por cerca de 8,5 anos, avaliando nesse período a ocorrência de ataques cardíacos (infarto do miocárdio e morte), câncer de mama, acidente vascular cerebral (AVC), tromboembolismo, câncer de intestino, fratura de quadril e morte por outras causas. Comparando as freqüências dessas doenças nos dois grupos, o estudo seria capaz de determinar se a terapia de reposição hormonal poderia proteger contra algumas dessas doenças ou, pelo contrário, aumentar o risco de sua ocorrência. Os resultados apresentados referem-se apenas a um esquema de TRH constituído de estrogênios eqüinos conjugados (0,625 mg/dia) associado a acetato de medroxiprogesterona (2,5 mg/dia).

Após 5,2 anos de seguimento, analisando os resultados preliminares da pesquisa, os autores tiveram que suspendê-la antes do tempo previsto, pois evidenciaram pequenos, mas significativos aumentos nas taxas de doença coronariana, AVC, embolia pulmonar e câncer de mama, nas mulheres que receberam TRH. Por outro lado, as mulheres que receberam TRH apresentaram menor ocorrência de fraturas de quadril e de câncer de cólon (intestino), representando, pois, benefícios da reposição hormonal. Entretanto, de acordo com as análises detalhadas dos resultados, os autores concluíram que os riscos excederam os benefícios, justificando-se a interrupção prematura do estudo. O risco aumentado de câncer de mama tornou-se significativo após 4 anos de tratamento e o risco de tromboembolismo foi mais importante nos primeiros dois anos de terapia.

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Os resultados apresentados referem-se exclusivamente a uma combinação de hormônios, constituída de estrogênios eqüinos conjugados (0,625 mg/dia) associado a acetato de medroxiprogesterona (2,5 mg/dia). Esse esquema terapêutico é indicado nas mulheres que possuem o útero, pois contém um progestagênio (acetato de medroxiprogesterona), responsável pela proteção contra o câncer do endométrio, que é a camada mais interna do útero. Existem diversos esquemas de TRH, inclusive aqueles em que utilizamos apenas estrogênios, como nas pacientes que já não possuem mais o útero. Além disso, existem hormônios mais naturais do que os empregados nesse estudo, diferentes combinações hormonais e vias de administração alternativas, como os patchs transdérmicos, géis para aplicação cutânea, implantes subcutâneos e compostos para administração vaginal.

Prof. Dr. George Dantas de Azevedo

Prof. Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Editor Científico do Boletim da Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

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