A culpa de todos nós! - Parte III

A culpa de todos nós  Parte III

Culpa que atribuímos

É evidente que não me refiro à culpa que se impõe sobre quem cometeu um crime, ou alguma falta grave e que em função disso foi duramente culpado, condenado e punido. Refiro-me às culpas diárias que se somam durante nossa vida.

Muitas vezes fazer o que não queremos, ignorando nossos sentimentos e desejos geram a culpa que atribuímos. Acusar os outros é um hábito que muitos fazem sem perceber. Procurar um culpado fora de nós se tornou um hábito.

É importante cada um fazer uma análise dos próprios comportamentos, começando a se perguntar: Tenho a tendência a culpar alguém quando algo que quero, ou pretendo fazer, não acontece como espero? Ou ainda: em que situações culpo outra pessoa? .

Quando culpamos alguém que nos induziu ao erro, que nos causou algum sofrimento, nos decepcionou, devemos nos perguntar até que ponto o outro foi realmente responsável por nossas próprias atitudes ou sofrimento. Por exemplo, se alguém nos dá um conselho de como devemos agir, cabe a cada um de nós decidir se é isso que desejamos.

As pessoas tendem a perguntar como devem agir para terceiros, esquecendo que todas as respostas para suas perguntas estão dentro de si mesmas. Mas é certo também que em algumas situações as pessoas falam suas opiniões mesmo quando não as pedimos. Em todas essas situações podemos sofrer as conseqüências dessas opiniões e, quando as aceitamos, tenderemos a culpá-la pelo mal que nos causou. Mas do que adianta culpar alguém? Isso realmente provocará alguma mudança ou reconhecimento pelo que fez?

A culpa que colocamos no outro pode ser uma projeção daquilo que verdadeiramente sentimos e pensamos sobre nós mesmos e não temos coragem de enfrentar e assim utilizamos mecanismos de defesa, onde negamos e projetamos.

Culpamos os outros por falharem conosco, por nos decepcionarem, magoarem. Mas, será que não somos nós que precisamos mudar as nossas próprias atitudes, às vezes inconscientes, mudar as exigências e expectativas que impomos sobre nossos relacionamentos e nas pessoas? Quantas vezes não magoamos a nós mesmos? Será que a culpa que tentamos atribuir a alguém na verdade não é nossa própria dificuldade em nos responsabilizarmos e projetamos no outro aquilo que não conseguimos realizar de modo diferente?

Mas, como não culpar o outro quando somos traídos em nosso amor, em nossa confiança? Como não culpar o outro que nos causa ou causou tanto sofrimento? Concordo ser extremamente difícil. Será que não havia sinais evidentes que o outro não estava mais tão interessado em nós e fazemos que não percebemos? Sim, o outro poderia ter terminado antes, sendo sincero e assumindo seus próprios sentimentos e não o fez.

Seja o que for que nos machuque, devemos entender que nós somos responsáveis por nós mesmos e ninguém mais. Muitas pessoas nos dão sinais evidentes que não são dignas de nossa confiança e por que insistimos em confiar? Para provar que estávamos certos em nossa intuição, desconfiança, ainda que paguemos com o preço do nosso sofrimento? Ninguém culpa outra pessoa pelo que a ajudou. Isso nos mostra o quanto a culpa sempre vem carregada de sentimentos negativos, não trazendo o bem para ninguém. Alguém sempre terá participação nas dificuldades, como também nos êxitos, que nos ocorrem, mas é muito mais comum acusar alguém pelo que não fez ou pelo que machucou do que pela ajuda oferecida.

É muito comum também culparmos nossos pais por todas nossas necessidades e expectativas não realizadas. Por mais dificuldade que podemos ter quando adultos, por mais que nossos pais não demonstraram seu amor como gostaríamos, é sempre bom lembrar que eles nos deram a dádiva da vida, e apenas por isso serão eternos merecedores de todo nosso respeito e gratidão.

Quando buscamos entender nosso histórico de vida, relembrando fatos antigos, temos como objetivo encontrar a origem de nossas dificuldades atuais e não a busca por culpados. Devemos cortar sim o cordão umbilical, e nos tornarmos independentes, mas isso exige que não esperemos mais de nossos pais, tentando compensar o que eles não puderam dar em determinado momento da vida deles, ainda que esse momento tenha durado alguns anos.

Devemos nos desfazer da imagem de como nossos pais deveriam ser, mesmo que não nos deram o que precisávamos, para que possamos encontrar paz dentro de nós. A idealização do que gostaríamos geralmente nos traz sofrimento. Claro que não só a idealização, mas também quando há abusos e maus tratos durante a infância, trazendo também muito sofrimento, e é natural buscar nestes casos o culpado , saber quem o fez e porque fez. Mas se continuarmos presos ao passado através de mágoas, ressentimentos, culpas, julgamentos, vergonha, nos manteremos reféns desse passado.

O que quisemos, precisamos e esperamos que tenham nos dado no passado, ou aquilo que esperávamos que não nos tivessem feito, podemos buscar em nós mesmos hoje. Se não nos deram amor, devemos buscar em nós; se não nos respeitaram, devemos nós mesmos nos respeitar. Se quisermos nos ajudar, devemos começar a nos olhar com sinceridade e honestidade. E ainda que possamos reconhecer a participação de alguém em qualquer mal que nos aconteceu, não podemos ficar parados como vítimas impotentes, mas devemos acima de tudo aprender a agir, não contra os outros, mas em favor de nós mesmos.

Quando somos injustiçados por alguém que detêm de alguma forma o poder, ou aquilo que esperávamos que não nos tivessem feito, podendo ser pai, mãe, chefe, marido, esposa, nos atingindo pelas costas, por acreditar que o poder lhe dá esse direito, devemos lembrar que só esse direito será dele se o concedermos. Só se atinge pelas costas quando não consegue atingir de frente, olho no olho, e por mais poder que demonstre ter, não tem a coragem.

Pessoas com esse perfil raramente desejam perceber o mal que causam, simplesmente ignoram aos outros na mesma proporção que ignoram a si mesmos. E por mais que desejamos que através da culpa por nós imposta o outro reconheça, peça desculpas e mude, dificilmente conseguiremos algum resultado se a própria pessoa não estiver disposta a olhar para dentro de si mesma. Não devemos culpar alguém pelas atitudes que teve nem pelas que não teve, cada um deve ser responsável também pelas idealizações feitas. Esperamos demais dos outros quando deveríamos esperar de nós mesmos, não das outras pessoas.

Culpa que nos é atribuída

Geralmente acontecem quando não correspondemos às expectativas ou idealizações de outra pessoa. Muitos pais culpam os filhos por sua infelicidade. Maridos culpam suas esposas por não serem compreensivas ou serem controladoras. Esposas culpam maridos por não serem carinhosos. Os exemplos são infinitos. Somos sempre culpados por alguém quando não agimos conforme esperavam que agíssemos, e mais, somos culpados muitas vezes por não sermos como gostariam que fôssemos, mas também podemos ser culpados por aquilo que efetivamente fizemos ou não fizemos, mas que por conseqüência, machucamos e, ao nos culparem, também nos machucam.

Isso acontece porque geralmente as pessoas não conseguem assumir suas próprias atitudes e responsabilidade e culpam os outros pelos mais diferentes motivos. Seja qual for o caso, devemos ser responsáveis por aquilo que nos cabe, evitando assim que nos culpem, ou ao menos, devemos evitar assumir tal culpa quando temos consciência que nada fizemos. E para evitar que essa culpa nos seja atribuída muitas vezes agimos contra nossos valores e também sofremos com isso. Fazemos aquilo que esperam de nós, e não como gostaríamos de ter feito, tudo para não sermos acusados e culpados. Muitos podem querer nos atribuir culpas, mas podemos decidir em aceitá-la ou não. Ainda que erremos em alguns casos, afinal somos seres humanos, não podemos atribuir a um fato nosso valor enquanto pessoa.

Pessoas que fazem com que nos sintamos culpados utilizam o poder, o autoritarismo, a manipulação, o ressentimento e a chantagem emocional para conseguirem o que querem de nós. Por isso que produzir culpa em alguém é algo muito cruel. Seria muito mais honesto que cada um se responsabilizasse e assumisse os próprios sentimentos falando sobre eles claramente ao invés de nos manipular através da culpa.

Devemos sempre fazer um questionamento se realmente magoamos alguém, e se for o caso, praticar da maneira mais humilde nosso reconhecimento nos desculpando e reparando o erro que cometemos. Só podemos nos sentir culpados quando percebemos que fomos injustos conosco, com nossas intenções mais honestas. Por isso que uma análise sincera de nossos comportamentos é necessária para não assumirmos culpas que não são nossas e para que possamos assumir a responsabilidade que nos cabe, cada um com sua própria consciência.

Precisamos aprender a deixar que o problema do outro seja dele e não nosso, quando não nos pertence. Somos sermos humanos que erramos mesmo quando buscamos acertar. Se alguém nos culpar do que sabemos não ter feito, é problema dele. Mas, se nos permitirmos assumir essa culpa e nos magoarmos por isso, é problema nosso.   

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