A culpa de todos nós! - Parte IV

A culpa de todos nós  Parte IV

Crenças. O que causa culpa? Sentimentos, fatos, atitudes, situações, enfim, tudo que já exploramos nos artigos anteriores

A causa da culpa pode ser ainda a certeza de estar sendo injusto com alguém, atacar quem não pode se defender, infringir certas regras e normas do que foi estabelecido ser correto. Quanta culpa carregamos e que não nos pertence? Se você fez a lista de culpas sugerida, leia novamente o que escreveu e agora perceba quais são as culpas que sabe que não lhe pertence.  

Carregamos apenas culpa por termos realmente ferido alguém, ou também nos culpamos mesmo quando sabemos que nossas intenções nunca foram machucar, mas simplesmente porque nossas ações não foram ao encontro dos valores de outra pessoa ou porque transgredimos algumas regras das quais não concordamos?

E quantas outras vezes nos culpamos por fatos ocorridos no passado, onde nossos valores eram outros, quando não tínhamos conhecimento nem maturidade para agirmos de outro modo?

Quantas pessoas se culpam por não corresponderem ao padrão de beleza imposto pela mídia? A exigência que respeitemos algumas regras estabelecidas como corretas nos induzem a culpa, por mais que não concordemos com tais regras.

Quantas pessoas se culpam ao enfrentarem o preconceito de uma sociedade que os rejeitam por serem homossexuais, deficientes físicos? Quantas culpas algumas pessoas trazem por regras impostas pela sociedade, religião? Por que nos culparmos de valores que não são nossos? Quanta culpa sentimos por sermos rejeitados e abandonados? Quantas pessoas mantêm o casamento, apesar do sofrimento, somente para não se sentirem culpadas pela separação? Os motivos são infinitos...

A culpa está relacionada com certo, errado, com cultura e ética, de acordo com aquilo que convém ser considerado correto de acordo com a situação atual. Por exemplo, hoje em dia ficar grávida sem ser casada é aceito e até incentivado pela mídia, mas há alguns anos atrás era um verdadeiro afronto à família; assim como o divórcio, onde era imposto que por mais sofrimentos que houvesse, o casamento devia ser mantido, hoje é aceito naturalmente.

Ninguém é mais condenado a culpa por estar grávida ou ter optado pelo divórcio. A educação, com suas regras rígidas, castradoras, repressoras, é muitas vezes a origem das culpas que carregamos, e como pesa!

Por exemplo, a culpa muitas vezes surge por crenças religiosas muito fortes, onde ainda se acredita que devemos ser punidos ao cometermos algum pecado. Em algumas religiões não é aceita a relação sexual antes do casamento, o divórcio, os métodos contraceptivos, a homossexualidade, provocando culpas em quem não age de acordo com o que é considerado correto.

Muitas vezes obtém-se que o outro faça algo, não porque julga correto, mas através da manipulação, do controle, da submissão, da autoridade, do poder. E se agimos diferente do que é esperado de nós, acabamos por nos sentirmos culpados, e assim permitimos que sejamos punidos ou acabamos nós próprios por nos punirmos. Muitos acreditam que através de muito sofrimento podem, quem sabe, serem perdoados, absolvidos, mas até lá, há um extenso caminho de sofrimento, porém tido como merecedor.

A sexualidade é outra área em que a culpa gera muitos problemas, tanto pela repressão da religião e, principalmente, pela educação igualmente repressora e castradora. Ainda que os pais não tenham fornecido informações aos filhos, estes formaram preconceitos e crenças sobre sexo através de exemplos que foram observando, ouvindo no decorrer de seu crescimento, formando assim suas próprias crenças, porém contaminadas. Muitas pessoas nem percebem que alguns de seus conflitos e culpas referentes ao sexo têm origem não necessariamente naquilo que ouviram, mas no que registraram em suas mentes como certo.

Quantas pessoas engordam ou vestem roupas largas, soltas, para sentirem-se menos sedutoras, evitando chamar a atenção, por aprenderem desde crianças que sexo é sujo? Quantas pessoas não se permitem sentir prazer pela crença de que é errado? Quantas mulheres aceitam que seus companheiros tenham relações sexuais com outras mulheres, por acreditarem que estão pecando ao se permitirem sentir prazer? Até hoje quantos casais não conversam sobre sexo, mesmo quando há dificuldades sexuais, por preconceitos, tabus?

Assim, muitos comportamentos vão sendo controlados e, nós, manipulados e culpados. Isso acontece porque na verdade, poucas pessoas refletem sobre seus próprios valores e assumem os valores dos outros como seus. Resultado: culpa. Quantas vezes fazemos algo e nem sabemos por que estamos fazendo? Será que a culpa que carregamos existiriam se nos julgássemos pelos nossos próprios valores e não de terceiros?

Raramente paramos para pensar se nossos conflitos existem por nossa própria dificuldade ou se estes mesmos conflitos são gerados pelas culpas que assumimos quando simplesmente não agimos de acordo com valores que não são mais nossos ou nunca foram.   

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