A culpa de todos nós! - Parte V

A culpa de todos nós  Parte V

A família como origem.

É muito importante que nos libertemos das culpas, principalmente as que se referem aos nossos pais; tanto das culpas que atribuímos a eles, como as que assumimos por termos ou não termos feito algo por eles.

Do contrário, podemos repetir alguns conflitos vividos na família em nossos relacionamentos afetivos. Por exemplo, uma mulher que teve um pai que a maltratava poderá se casar com alguém que também a maltrata; um homem que teve uma mãe autoritária poderá se casar com uma mulher igualmente dominadora.

Se há um pai e/ou mãe alcoólatra, independente do fator hereditário, podem se unir a uma pessoa também alcoólatra. Se houve um pai ausente, poderá ter um marido tão ausente como o pai. Isso acontece porque todos nós tendemos a repetir, quando adultos, alguns padrões de comportamentos que tivemos na infância, com o objetivo de dissolver esses conflitos.

Quando não conseguimos com nossos genitores, tentamos com nossos companheiros(as). Enquanto não identificamos esses conflitos familiares, iremos repetindo-os. Por isso é preciso reconhecer nossas feridas sem fugas para não repetirmos os mesmos padrões que tanto nos machucam.

É comum pai e/ou mãe desejarem impor suas vontades aos filhos ao fazer com que se sintam culpados, e para alcançar isso recorrem à autoridade, poder, repressão, cobrando que tenham atitudes conforme seus próprios valores, ignorando muitas vezes a individualidade de seus filhos.

É certo que alguns filhos exageram em seus comportamentos e também não respeitam seus pais; mas sabemos de muitos casos os quais os pais não respeitaram seus filhos desde pequenos e depois, quando estes são adultos, são cobrados pelo respeito que sequer receberam.

O mesmo podemos dizer em relação a carinho, atenção, cuidado e amor. Quantos pais não deram nada disso a seus filhos e depois esperam receber? Quantos pais deram a seus filhos a indiferença, o desprezo, a rejeição, o abandono e depois de anos desejam receber atenção, cuidado e amor? Como retribuir o que nunca foi recebido? Quantas culpas são geradas por essa cobrança interna por não conseguir dar o que não tiveram? Mas será que esses pais tiveram dos pais deles?

Ninguém dá aquilo que não tem, apesar de ser muito difícil entendermos isso. Como culparmos nossos pais por aquilo que não nos deram, se eles próprios não receberam e nem tiveram informações ou condições suficientes para mudarem a maneira de agir? Da mesma forma, como podemos nos culpar quando não conseguimos dar o que também não tivemos? Não podemos nos culpar e nem culpá-los, mas podemos procurar entender toda essa dinâmica e aos poucos ir dissolvendo as culpas através do longo processo da compreensão e do perdão.

Muitos pais geram adultos inseguros pelo excesso de zelo e preocupação, desdobrando-se em cuidados e atenção. A superproteção, onde o lema é para seu próprio bem, na verdade faz com que quem esteja sendo cuidado sinta-se incapaz de cuidar de si mesmo, pensar, realizar seja o que for, comprometendo assim sua auto-estima. É preciso muito cuidado para não dar ou realizar algo que é de responsabilidade e competência de outra pessoa, fazendo com que se sinta incapaz. E isso acontece com muita freqüência em muitos relacionamentos, não só entre pais e filhos, mas entre casais.

Quando há superproteção, na verdade, está se subestimando a capacidade do outro, como se ele não a tivesse ou ainda, para compensar a falta de amor, pelo outro ou por si mesmo. A proteção em excesso não traz crescimento algum. Superproteger é muito diferente de ajudar o outro a crescer, que requer acima de tudo respeito.

Nem todos os pais respeitam seus filhos, independente da idade. Em muitos casos resolvem por eles, decidindo o que devem fazer, falar, sentir e se não corresponder ao que é esperado, inevitavelmente será culpado. É evidente que não estou me referindo aos filhos ainda pequenos, apesar de que, estes também devem ser ouvidos e suas opiniões consideradas. Afinal, as relações entre as pessoas são baseadas na troca, seja de energia, carinho, afeto, amor. E quando um só lado decide, não há troca.

Alguns de nós aprendemos desde cedo que devemos ser responsáveis pela felicidade do outro, o que também pode causar muitos conflitos nas relações. É muito comum o pai, muito mais a mãe, acreditar ser responsável pela felicidade de seu filho, gerando muitos conflitos e culpas, pois nem sempre o que é ser feliz para uma pessoa será para outra. Podemos sim fazer o outro mais feliz com nossas atitudes, mas isso não quer dizer que sejamos responsáveis por sua felicidade, pois isso compete a cada um de nós.

Presenciamos por anos mães abrindo mão de suas coisas, seus valores, suas vidas. Quantas vezes ouvimos quanto fizeram e, principalmente, quanto deixaram de fazer por nós? Como não sentirmos culpa diante de tanta dedicação? Essa ilusão em sentir-se responsável pela felicidade do outro, leva inevitavelmente a controlar, acusar, cobrar, produzindo a culpa. Desenvolvem-se assim, relacionamentos doentios, sejam entre pais, irmãos, amigos, ou nas relações afetivas. Quando não se sabe lidar com os próprios conflitos, alguns recorrem ao álcool, drogas, como fuga de uma realidade difícil de ser suportada.

Outra fonte de culpa é quando supervalorizamos o que outras pessoas falam e pensam sobre nossas atitudes, principalmente nossos familiares. Estamos sempre buscando reconhecimento, aprovação e querendo agradar, apesar de que muitas pessoas não percebem essa busca. E há sempre quem nos julgue, dê opiniões, mesmo quando não a pedimos.

Enquanto fazemos o que outras pessoas esperam que façamos para agradá-las, em virtude de nossa falta de amor-próprio, continuamos dando-lhes oportunidades de nos julgarem. Quem tem a necessidade de ser constantemente aprovado, reconhecido, acaba por ficar sempre na dependência de alguém.

Quanto mais nos culparmos por não sermos como gostariam que fôssemos, e assim, dignos de sermos amados, ficamos mais submissos, frágeis e dependentes. Quanto mais permitirmos que

nos impeçam de agir e pensar por nós mesmos, mais nos distanciaremos de nosso próprio desenvolvimento e crescimento, de nosso verdadeiro eu, o self.

É certo que tendemos a nos culpar quando não fazemos algo por nossa família, pelos quais podemos e devemos colaborar, mas conforme a nossa vontade e afinidade, dentro da nossa capacidade de fazer ou aceitar; o que é muito diferente quando nos submetemos à vontade dos outros e ignoramos nossos próprios valores e desrespeitamos nossos sentimentos, isso não é ajudar, é perder o amor próprio.

Por que a constante busca em agradar, satisfazendo sempre as necessidades da família, amigos, e a culpa, toda vez que não conseguimos satisfazer a todos? Por que é tão difícil dizer não?

Na verdade, todos nós estamos sempre buscando agradar a alguém para que percebam quanto somos bonzinhos, úteis, importantes e assim, esperamos que nos aceitem, e acima de tudo, que nos amem e não nos abandonem.

No fundo esperamos que nos amem pelo que somos e não pelo que gostariam que fôssemos. E isso pode ser a origem de muitos conflitos e culpas. O conflito é instalado pela dúvida, inconsciente, em sermos o que realmente somos ou sermos como gostariam que fôssemos. Se formos quem realmente somos, não seremos aceitos, pois sabemos que não corresponderemos às expectativas esperadas e verbalizadas. Se formos como gostariam que fôssemos é porque não nos aceitam como somos.

Nos dois casos, não ser aceite implica não ser amado, e todo o círculo vicioso se inicia. Nosso inconsciente faz a seguinte leitura: não serei amado se for quem sou e nem serei amado se for como gostariam, porque na verdade não sou eu. Se não sou aceito e nem amado é porque devo ser muito mau ou devo ter feito algo muito errado .

Conclusão: culpas e mais culpas. E com a culpa sempre vem junto a autopunição. Por isso temos tanta necessidade em agradar, para sermos aceitos e amados. E quanto menos conseguimos agradar, mais nos culpamos. Muitos conflitos e culpas poderiam ser evitados se simplesmente nos aceitássemos e aprendêssemos a nos amar.   

Comente

Últimas