A culpa de todos nós! - Parte VI

A culpa de todos nós  Parte VI

Aspectos inconscientes

A culpa está presente na maioria das relações, sejam quais forem, mas não podemos deixar de refletir sobre alguns mecanismos inconscientes que acentuam e potencializam esse sentimento

tão devastador. Por exemplo, quando alguém faz algo que nos machuca, cometendo uma injustiça, tendemos a culpá-la. Nem sempre analisamos se ela nos machucou pelo o que ela fez realmente ou porque mobilizou situações que já vivenciamos e preferimos esquecer; simplesmente a culpamos.  

Mas temos que considerar que há alguns aspectos inconscientes que podem tornar nosso sofrimento muito mais intenso.

Vamos entender um pouco o que pode acontecer nos casos em que culpamos outra pessoa, quando nos culpam de algo que acreditamos não ter feito e quando nós mesmos assumimos todas as culpas.

Todos nós temos um histórico de vida, e reagimos de acordo com esse histórico e nem todas as pessoas com quem convivemos o conhece e muitas vezes nós mesmos não temos consciência de tudo que já nos aconteceu, por serem conteúdos que se tornaram inconscientes. Quantas vezes percebemos que nossa reação foi desproporcional ao fato ocorrido? Quando culpamos alguém pelo que nos fez e a pessoa diz que não sabia que aquilo iria nos machucar, pode ser a mais pura verdade.

Cada pessoa irá reagir de acordo com o que determinada situação irá encontrar dentro dela, ou seja, se já existem alguns registros anteriores de situações semelhantes, ela poderá reagir pela soma de todas e não apenas pela que acabou de acontecer.

Nesse momento serão mobilizados e desencadeados traumas , que já foram vivenciados e que possuem forte carga afetiva, que são os complexos.

O complexo afetivo é a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e que pode ser ativado em qualquer momento e do qual não temos o controle por ser um processo inconsciente.

Assim sendo, um acontecimento pode ativar um complexo com a finalidade de descarregar a tensão emocional excessiva que está reprimida. Por exemplo, quando há vários registros de abandono, e uma outra pessoa nos abandona mais uma vez, irá ativar esse complexo dentro de nós, quando podemos ter reações desproporcionais, pois não reagiremos apenas de acordo com o fato atual, mas sim pela soma desse fato com os anteriores. E dentro dessas reações, uma delas poder ser a culpa.

Tendemos a culpar o outro pelo nosso profundo sofrimento, quando na verdade nosso sofrimento foi causado por tudo aquilo que já existia dentro de nós e que nesse momento foi potencializado e mobilizado. Ou pode acontecer também de nos culparmos. Se há registros arquivados em nosso inconsciente, por exemplo, de rejeição, quando alguém nos abandona, além de culparmos o outro, também podemos nos culpar, sentindo como se tivéssemos feito algo errado para justificar o fato de termos sido abandonados mais uma vez, ativando assim esse complexo.

O mesmo processo pode acontecer quando alguém nos culpa de algo que fizemos. Na verdade, sem sabermos, podemos ativar complexos de situações difíceis de serem suportadas em função de todo o histórico e somos acusados como culpados. Em todos os casos, a culpa pode nos dar o limite e elevar o autoconhecimento.

Por toda essa dinâmica é que encontramos casos em que a pessoa que nos machuca não percebe e nem aceita ser a causadora de nosso sofrimento, e o contrário também. É certo que esse mecanismo não justifica todas as situações as quais nos culpamos, culpamos alguém ou somos acusados como culpados.

Há momentos em que realmente não há a intenção de magoar, nem sempre fazemos algo que sabemos machucar o outro, e nem sempre o que nos fazem teve como objetivo nos machucar. Mas devemos sempre considerar que as pessoas são diferentes e reagem igualmente de maneira diferente, principalmente por não sabermos seu histórico e muitas vezes, não sabemos nem o nosso.

Quando machucamos alguém, e geralmente o fazemos com as pessoas que mais amamos, devemos explicar os motivos de nossa atitude, fazendo com que o outro entenda. Devemos também considerar que nossa limitação na compreensão de outras pessoas se deve pelo pouco que sabemos sobre nós mesmos.

Quando assumirmos a responsabilidade que temos sobre nossos sentimentos, não mais o projetaremos nos outros, e ao comunicarmos honestamente o efeito que o comportamento dos outros têm sobre nós, podemos criar um clima emocional possível de um maior entendimento, mas é preciso muita honestidade, acima de tudo, com nós mesmos. Contar toda a verdade para outra pessoa pode ser um processo extremamente doloroso e assustador, pois corremos o risco de sermos rejeitados, porém ao mostrar nossos medos e vergonha, podemos encontrar o alívio tanto desejado.

Quantos relacionamentos afetivos são frustrados quando esperamos atitudes que nunca vêem? Será que a outra pessoa efetivamente tem dificuldades em expressar o amor que esperamos, ou será que ela não tem esse amor por nós? Essa resposta só o tempo, as atitudes, ou falta delas, poderá nos responder. Outro aspecto inconsciente da culpa é quando nos culpamos por algo que não nos foi feito diretamente, mas que nos fizeram sentir culpa. Para muitas pessoas é muito difícil haver uma coerência entre o que pensam, sentem e o que fazem.

Alguém pode nos falar uma coisa e demonstrar outra. Por exemplo, quando uma criança pergunta para sua mãe por que ela está chorando e a mãe responde que não há nada ou que não está chorando, a criança percebe a incoerência entre suas palavras e aquilo que está sendo demonstrado. Isso pode levar a criança a se culpar. Por não ter como resposta à verdade, ela pode imaginar o que ela fez que machucou tanto sua mãe.

O mesmo acontece em casos de divórcio, quando nada é explicado para a criança. Em geral ela se culpa ao pensar ser responsável pela separação. Ou ainda, quando uma pessoa fica doente ou morre, e nada é explicado, a criança pode pensar que ela foi a culpada pelo ocorrido. Em casos de falecimento é muito comum encontrarmos a culpa também em adultos, quando começam a se cobrar por tudo que não fizeram pela pessoa enquanto estava viva.

Quando não há uma explicação lógica para os fatos e atitudes, ficamos por conta de nossa imaginação, sempre buscando explicações. Nos casos de separação, aonde um deles simplesmente vai embora sem explicar nada, aquele que fica tende a se culpar imaginando onde errou. Por isso que as mentiras em geral geram tanta culpa. Como muitas vezes não há coerência nas explicações, acabamos por imaginar o que quisermos. E a culpa acaba por atingir mais ainda quem tem baixa auto-estima e pouco amor-próprio.

A verdade é que sob toda culpa há um ser humano tentando conseguir amor, reconhecimento e atenção, exatamente por não tê-los. Mas por que não buscamos esse amor por outros caminhos, quem sabe aprendendo a nos amar?    

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