A culpa de todos nós! - Parte VII - O perdão

A culpa de todos nós  Parte VII  O perdão

A verdade é que a culpa nos faz permanecer no papel de vítima, o qual não promove nenhum crescimento, apenas estagnação, doença e morte, pois contamina todos os relacionamentos, principalmente a relação que temos com nós mesmos.

Toda culpa nos traz a sensação que estamos errados, somos maus, destruindo nossa auto-estima e amor-próprio. Ao nos sentirmos errados, inconscientemente, buscamos nos punir das mais diversas formas, nos destruindo, nos impondo sofrimento, adoecendo.

O assunto é tão sério que alguns estudos mostram que 75% das pessoas que sofrem de enfermidades estão punindo a si mesmas. A utilização do corpo pode ser um meio de autopunição através do sofrimento e autodestruição representando uma reação e defesa proporcionada pela culpa. Quando nos culpamos nosso inconsciente entende que realmente erramos e, como todos nós trazemos em nosso íntimo a conotação religiosa que, quando assim agimos, devemos pagar por nosso pecado, tendemos a nos punir das mais diversas formas. Uns adoecendo, outros se impondo o sofrimento. Tudo com o intuito de nos redimir de nosso erro, mesmo quando não erramos, mas nos culpamos.

Outra forma de autopunição é o afastamento das pessoas, o isolamento. Nada fica, a não ser as culpas que causam doenças. Não é a culpa a única companheira do solitário, mas sim se torna solitário quem acredita na culpa, quem reprime a si próprio, quem se deixa levar pelas palavras e pensamentos da ignorância dos outros.

Quem entra no jogo daqueles que desejam exercer o poder, quem cede a chantagem emocional das outras pessoas, quem acredita que pode fazer aquilo o que é impossível ser feito.

A culpa é gerada por diversas situações, mas geralmente surge quando insistimos em julgar situações passadas com valores do presente. Ou, ainda, quando aceitamos a culpa que nos são atribuídas, mesmo depois de termos sido sinceros e concluirmos que nada fizemos para isso. Você já percebeu que geralmente julgamos alguma atitude que tivemos no dia anterior, ou ainda, há dez ou vinte anos atrás com os valores que temos hoje?

Como podemos exigir que agíssemos ontem com a cabeça que temos hoje? Provavelmente qualquer situação analisada depois que aconteceu será compreendida de outra forma. Isso é sinal que, felizmente, evoluímos. Sempre agimos em conformidade com nosso estágio evolutivo e de acordo com aquilo que acreditamos ser o mais correto. Mas, se depois de dias ou anos avaliarmos uma atitude ou falta dela, com certeza avaliaremos de acordo com outros valores, os atuais. O que quer dizer, que houve evolução e, como, podemos nos cobrar que anteriormente pensássemos como hoje?

Todos nós mudamos. Isso quer dizer, que felizmente, evoluímos, crescemos. Quando se culpar de algo, analise o fato com os valores que tinha na época e que provavelmente serão diferentes do quais têm hoje, ao reavaliar a situação. Não se cobre o que você não sabia. O grau de responsabilidade deve sempre ser coerente com as experiências vivenciadas. Não podemos cobrar aos outros, nem a nós mesmos, experiências das quais não foram vivenciadas.

Ainda que as outras pessoas não queiram ou não estão preparadas para assumir suas próprias responsabilidades, devemos assumir as nossas responsabilidades. Nem que, para isso, seja necessário nos afastarmos de quem nos faz sentir culpa ou insiste em nos culpar do que não fizemos.

Apesar disso, evite culpar as pessoas com frases como, por exemplo: você não me ligou... Por que não assumir sua necessidade e dizer: eu queria falar com você... Ou ainda: você nunca está aqui quando eu preciso... É muito diferente de: eu me sinto só quando você não está aqui... Percebe a diferença? Ao invés de apontar o seu dedo para outra pessoa, assuma seus próprios sentimentos e necessidades.

Toda culpa oculta uma acusação e ninguém gosta de ser acusado, ainda mais se o for injustamente. Quando somos acusados, utilizamos mecanismos de defesa como a resistência e passamos a nos defender e, muitas vezes, agredimos, na mesma proporção que nos sentimos agredidos.

O melhor remédio para a culpa é perdoe-se e perdoe! O perdão é um dom e, acima de tudo, é compreender as dificuldades, nossas e dos outros, e isso requer auto conhecimento. Precisamos reconhecer que não é nada fácil romper o padrão de sentir-se culpado, pois para algumas pessoas talvez seja muito mais fácil continuar a viver acorrentando por esse sentimento que aprisiona, destrói e aos poucos vai consumindo por dentro.

Esse é o caminho da acomodação, da zona de conforto de muitos ao ter que se confrontar com sua sombra, tudo aquilo que há dentro de nós e que temos muito medo de enfrentar. A verdade é que ninguém quer ter o trabalho de mudar e, mesmo sentindo-se mal e com toda a angústia que a culpa proporciona, ainda a prefere como fonte de suas lamentações, mantendo assim seu papel de vítima que oculta o desejo de atenção e amor.

Quando culpamos alguém estamos querendo que ele perceba que nos machucou e que sua atitude pode comprometer o relacionamento. Esperamos na verdade que pense, se arrependa e nos peça desculpas. A palavra desculpa pode ser utilizada por nós para com outra pessoa, ou de outra pessoa para nós em todos os momentos que um erro foi percebido. Desculpa quer dizer: "retira a culpa que há em mim, pois reconheço o mal que causei, o erro que cometi."

Quando há o reconhecimento verdadeiro do erro, deverá vir acompanhada não apenas do pedido através da palavra desculpa , mas da demonstração do arrependimento do qual acompanha novas atitudes, buscando uma reparação.

Alguns autores relacionam três desculpas mais freqüentes utilizadas:

1."Eu não sabia o que estava fazendo". Isso pode ser justificado em casos de doenças mentais, alcoolismo, adicção. Do contrário, sempre se sabe o que se faz, pois se presume que todas as pessoas têm noção sobre o certo e o errado, noção de valores e do que pode machucar o outro.

2. "Eu não pude me controlar", que mostra haver algum traço de agressividade ou impulsividade;

3. "Eu devia estar louco quando fiz isso". Evidentemente a pessoa pode saber o que fez, ter memória do fato sem, contudo, ter juízo crítico adequado daquilo que fez ou ter dificuldade em assumir seus próprios atos.

Quando há um pedido sincero de desculpas espera-se que o mesmo erro não seja mais cometido. Do contrário, o pedido de desculpas poderá se tornar uma rotina, assim como o erro. A única maneira de atingirmos alguma transformação em nosso interior e em conseqüência, em nossas atitudes, vem da consciência do erro, não mais o cometendo. E não é nos culpando ou culpando alguém que conseguimos mudar ou provocar alguma mudança. Mas, sim, nos tornando conscientes de que estamos todos em constante aprendizado e, enquanto se aprende, se erra.

Errar é mais do que humano, faz parte da aprendizagem e durante nossa vida estamos sempre aprendendo. Essa conscientização acontece pela soma de nossas experiências vivenciadas através do tempo e nunca pelo medo. Afinal, respeito se conquista não se impõe. É muito diferente não fazer algo por respeito do que não fazer por medo de ser punido, abandonado, rejeitado, não amado.

Não podemos esperar de outras pessoas aquilo que não podem, não querem ou não têm para nos dar. É a aceitação sem julgamentos dos nossos pensamentos e sentimentos que nos leva ao auto conhecimento a amor-próprio. Reconhecer toda a verdade da nossa experiência, seja ela qual for, exige coragem para aceitar o medo, a raiva, humilhação, vergonha, tristeza, além de toda parte em nós que gostaríamos de reprimir e negar, aquilo que chamamos de sombra. Mas todo esse processo pode nos permitir aprender e crescer a partir dessas experiências, não mais nos culpando, mas nos responsabilizando por nossas próprias ações e mudanças.

Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, mas proporcionar uma reflexão sobre a culpa que todos carregamos e atribuímos sem muitas vezes termos a consciência do mal que pode nos trazer. Explorar o assunto, e não negar, sobre as culpas que sentimos e que, proporcionamos, pode nos ajudar a nos libertar da prisão que ela nos impõe. A culpa, verdadeiramente, acorrenta e corrói nossa alma, nos paralisando e impedindo de encontrarmos nossa essência, nosso verdadeiro eu, o self.

Enquanto nos culparmos, estaremos indo contra ao que acredito seja o sentido de nossa vida: a evolução! Mas quando conseguirmos perceber e aprender com nossos erros, e dos outros, cada um tendo humildade e responsabilidade suficiente para reconhecê-los, com certeza estaremos todos no caminho da transformação e do crescimento! E é isso que almeja nossa alma. Você agora tem duas opções: continuar se culpando e/ou culpando alguém - e assim ficar estagnado - ou perdoar e/ou se perdoar e crescer. Qual você prefere?    

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