A experiência da primeira menstruação

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A experiência da primeira menstruação

Foto Divulgação

"Estava de férias, em um parque e tudo que tinha era o meu maiô amarelo. Meu avô estava cuidando de mim na época e me levou a uma farmácia. Estávamos os dois envergonhados de entrar juntos. Então, ele apenas esperou no carro enquanto eu me perdi nos corredores dos produtos de higiene feminina. Liguei para minha mãe e ela tentou explicar como usar um absorvente interno. Nunca me senti tão sozinha. Para meu horror, ela espalhou a notícia de que eu havia me tornado uma mulher, tinha ficado menstruada. Tudo que eu queria fazer era me esconder".

Assim como a escritora americana Rachel Kauder Nalebuff, muitas mulheres não têm boas lembranças sobre a sua primeira menstruação. Claro que hoje, antes de ver as primeiras gotinhas de sangue na calcinha, pré-adolescentes já sabem qual é o seu papel biológico. Mas a questão vai além. O assunto ainda é tabu em alguns lugares do mundo e uma experiência traumática para muitas meninas.

Rachel conta que sua tia-avó a revelou como foi a sua "primeira vez", isso em 1940, quando a Polônia foi invadida por Hitler. Ela e sua família fugiram de trem para a França, escondendo a identidade judaica. Na fronteira alemã, o trem estava parado e um guarda nazista fez uma revista nos passageiros. Eles estavam à procura de jóias escondidas em cavidades do corpo.

"Ela viu o primeiro fluxo de sangue descer na perna enquanto esperava na fila, era a sua menstruação", conta. O guarda percebeu e não chegou a fazer o exame terrível e humilhante em sua tia-avó. "Quando ela me contou essa história, eu sabia que precisava reunir vários relatos e dividir isso com outras mulheres". Foi assim que surgiu a ideia do "My little red Book" (Meu pequeno livro vermelho), ainda sem tradução para o português. "Os direitos foram vendidos, mas ainda não tenho uma previsão de quando será lançado no Brasil".

Sucesso nos Estados Unidos, o livro reúne depoimentos de adolescentes, jornalistas do New York Times, escritoras, atrizes e mulheres de vários países, como Canadá e Itália. Mais detalhes você confere na pequena entrevista a seguir:

A experiência da primeira menstruação

Escritora Rachel Kauder Nalebuff. Foto/Divulgação

Para você, o que representa a menstruação hoje em dia?

Apesar de todos os progressos nos direitos das mulheres, o tema da menstruação ainda é considerado tabu. As mulheres continuam a sentir a pressão social para manter sua menstruação um segredo e ainda há um sentimento de vergonha em torno de sua chegada. Criei o livro para encorajar as mulheres a falar mais livremente sobre isso.

A história da sua tia-avó na época do nazismo te deixou tão impressionada que serviu de incentivo para escrever "My little red Book". Algum depoimento te impressionou tanto quanto o que ocorreu com ela?

Descobri que na África rural, por exemplo, muitas meninas ficam em casa durante a menstruação porque as escolas não podem custear o material sanitário, em alguns lugares nem há água encanada. E perdem quase 20% do seu aprendizado, muitas até saem da escola. Estou particularmente orgulhosa pelo fato de que apenas através do compartilhamento de nossas histórias nós fomos capazes de fazer uma mudança nas atitudes sociais, de melhorar a vida dessas mulheres jovens. Os lucros das vendas do livro apóiam programas de educação em todo o mundo, incluindo a construção de banheiros nas escolas, no Quênia.

Também conseguiu reunir alguns depoimentos especiais, até engraçados, como o seu?

Sim, algumas histórias são memoráveis. Por exemplo, uma menina manteve a menstruação em segredo de seus pais, queimando as calcinhas durante sete dias seguidos. Outra viu a sua saia manchada e criou um desenho de flores ao redor dela, percebeu que seria uma artista depois disso. Já outra ficou envergonhada porque menstruou tarde e mentiu às suas amigas, usava absorventes sem estar menstruada. São cerca de 100 relatos, alguns contando os rituais para marcar o acontecimento. No meu momento gostei muito de ouvir a história dessa minha tia, assim o rito de passagem se tornou uma ocasião para aprender algo importante da família. É legal saber como aconteceu com a mãe ou as amigas, uma forma de não se sentir tão sozinha nessa hora.

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