A grama do vizinho é sempre mais verde

Será que é possível transformarmos a inveja em algo bom?

A grama do vizinho é sempre mais verde

Por meio das redes sociais sabemos tudo o que está acontecendo na vida das pessoas à nossa volta. Suas promoções, viagens, sonhos realizados. E, pasmem, saber da felicidade alheia causa inveja, solidão e depressão. Pelo menos foi isso que concluiu um grupo de pesquisadores alemães ao fazer uma pesquisa com usuários alemães do Facebook no começo deste ano.

Segundo os resultados, uma em cada três pessoas sentiu-se pior e mais insatisfeita com a própria vida depois de visitar o site. As fotografias de férias encabeçaram o ranking de reações negativas, seguidas da interação social (número de amigos e curtidas). Além disso, pessoas com 30 anos ou mais são as que mais invejam a felicidade familiar dos outros na rede social e as mulheres invejavam mais a atratividade física.

O psicólogo Alexandre Bez, autor do livro "Inveja - O Inimigo Oculto" (Juruá Editora) concorda com a pesquisa e diz que as redes sociais podem, sim, incentivar o sentimento de inveja. Porém, acredita que o gatilho não é a plataforma em si, mas o perfil dos amigos que compõem a lista de contatos do usuário.

"Quando não há o contato pessoal envolvido, a inveja se torna ‘aleatória’, ou seja, não há o foco do (suposto) amigo direcionado para a pessoa. Então essa inveja se torna praticamente inócua e perde seu principal componente, que é a raiva", comenta.

Sem esse componente atuando na vida do invejoso, o invejado fica praticamente seguro, pois as informações pessoais contidas no perfil das redes sociais a serem analisadas pelo invejoso serão passadas despercebidamente. "Agora quando há contato, a situação muda e as informações pessoais serão utilizadas como uma espécie de munição", pensa o psicólogo.

O especialista esclarece que a inveja não está condicionada ao sistema financeiro ou econômico do qual rege a vida de cada um. O sentimento negativo existe quando vem acrescido de ganância, ódio, raiva, desejo, frustração, não conformação (com que o outro tem) e a incapacidade de o invejoso sentir-se feliz (não só por ele mesmo, mas pelo outro também).

"Neste caso, a simples ação de observar a felicidade alheia torna-se uma tarefa impraticável. E esse pode ser um dos meios que levam a pessoa a desencadear a prática de sua raiva a pessoa que a tem como próxima e querida."

Em vez de cuidarmos da nossa própria vida, ficamos presos, olhando "a grama do vizinho", sempre achando que ela é mais verde e mais bonita que a nossa. Às vezes temos condições de vida muito melhores que a do vizinho, mas, mesmo assim, achamos que o outro está sempre um passo à nossa frente.

Esse pensamento, segundo explica Dr. Alexandre, não passa de uma ilusão contida no próprio aparelho mental das pessoas. Isso porque o ser humano sempre quer mais, especialmente os frustrados e os gananciosos. E essas duas características complementam a raiva, presente no esquema mental dos invejosos.

Quem sofre mais com a inveja é o invejado, uma vez que passa a ser sabotado sem saber pelo seu amigo, por meio de mentiras, fofocas desenfreadas, falsas acusações entre outras ações. É interessante ao invejoso destituir o invejado de sua posição. E o invejoso cessa suas ações na hora em que atingir seus objetivos, mesmo que ilusoriamente. Pois ele nunca será a pessoa que gostaria de ser, não adianta imitá-la, copiá-la. Aí entra a frustração, deixando o invejoso infeliz novamente.

Quer virar o jogo? Então primeiramente pare de mentir para si mesmo e assuma esse sentimento. Depois pare de olhar a vida do outro e olhe para si mesmo. Pois é importante esclarecer que você não sente vontade de ir naquela linda viagem no lugar do seu amigo e nem tomar o salário do seu colega de trabalho. O que você inveja é a habilidade que aquela pessoa desenvolveu para alcançar seus próprios sonhos.

A partir do momento em que você tomar a consciência disso, começará a analisar o que falta em você para alcançar seus próprios desejos. Só assim vai conseguir fazer da inveja algo positivo para a sua vida e se tornar uma pessoa mais feliz. "Usualmente, quem não tem o mecanismo da inveja atuante em seu aparelho mental, não se preocupa com a grama do vizinho. Pelo contrário, fica feliz com o que este consegue angariar em seu inventário pessoal", completa Dr. Alexandre.

Juliana Falcão (MBPress)

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