A mulata preferida

A mulata preferida

Em meu trabalho de Clínica tenho um paciente que se chama Rafael e cursa Jornalismo. Ele tem 23 anos e sofre, há algum tempo, com a balança. É muito inteligente, criativo, articulado, mas não consegue uma convivência pacífica e sensata com a comida.

Eventualmente tem "ataques" alimentares, onde não consegue dominar-se e se deixa levar pela abdução momentânea. Em nossa última consulta falou-me sobre a mulher da sua vida. Com requintes de detalhes descreveu-me a mulata que mora em sua casa.

"Ela não possui formas sinuosas e nem tão pouco atraentes", conta ele. Ela é forte, robusta e exerce um fascínio, uma atração que o domina. Rafael tenta resistir aos seus encantos, fica nervoso, mas os apelos que esta mulata faz são incontroláveis.

Muitas vezes, na volta para casa, fica imaginando quais os artifícios que usará para não ser seduzido e não ficar estático frente à sua figura. Imagina-se chegando em casa e, simplesmente, não indo até onde ela está. Quer logo tomar um banho, comer algo leve e dormir.

Mas não consegue. Tenta se distrair fazendo algumas ligações, assistindo aos jornais da TV, mas não adianta. Mesmo calada e sem muito alarde ela consegue dominá-lo, a ponto de se sentir mal por não ter dado a devida atenção que merece. Não quer conflito. Não quer confronto. Então sorrateiramente chega até ela.

Sem muito carinho ou meiguice age naturalmente. Quando se dá conta está totalmente envolvido pelo perfume, pela luz, pelos prazeres que ela possui. Não resiste. Se rende ao charme sedutor e, mesmo sabendo que isto fará muito mal e o deixará arrasado, se deixa levar por estes momentos de intenso deleite.

Ela é quem manda. E não adianta fingir que não. Esta mulata preferida é a geladeira marrom.

Diante de tanta poesia e romantismo frente à geladeira, fiquei pensando que muitos têm em casa uma mulata, uma loira, ou outra qualquer onde o apelo, quase erótico, chega a ser desumano e cruel.

Entretanto, no caso específico deste paciente, sua companheira tem sido esta mulata. Ele tem uma história de vida particular, mas comum, pois mora sozinho e não tem uma companhia. Fez da geladeira sua companheira. Seu bem e seu mal.

Mas quantos moram com outras pessoas e têm a mesma visão, os mesmos sentimentos? Quantos? Quantos acreditam estarem rodeados por muitas pessoas e estão sós? Absolutamente sós!

É para pensar... A pior solidão é aquela vivida a dois, a três, a quatro, a cinco...

Pensem nisto!

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