Acostumar-se!

Acostumarse Quão grave é isso

Estou a apenas cinco passos da águia. Suas asas estão abertas e suas garras levantadas acima do galho. Penas brancas cobrem-lhe a cabeça e seus olhos perscrutam-me de ambos os lados de um bico vigoroso. Está tão próxima que posso tocá-la. Tão perto que posso acariciá-la. Basta inclinar-me e esticar o braço direito e posso cobrir com a mão a crista da águia.

Mas não o faço. Não me aproximo. Por que não? Estou com medo dela? Dificilmente. Ela não tem se movido nos últimos cinco anos. A princípio, quando abri a caixa, ela impressionou-me. Quando pus na estante pela primeira vez, admirei - a. Águias artificiais são bonitas por algum tempo, mas logo você se acostuma com elas.

ACOSTUMAR-SE! Quão grave é isso? Penso que todos que conhecem em si próprios ou nas pessoas com quem trabalham, aquela experiência de o coração se endurecer, de a compaixão ceder lugar à apatia e à indiferença. É o caso do sacerdote que em um ano levou oitenta pessoas à sepultura e que fala com naturalidade que "teve oitenta cadáveres" este ano.

Ou da enfermeira que fala apenas do "canceroso do leito cinco". Médicos que todos os dias entram em contato com a suprema miséria humana, com a luta entre a vida e a morte, facilmente se embrutecem. Como não encontraram uma maneira de encarar de frente esta realidade, muitas vezes não lhes resta outra saída senão a ironia e o sarcasmo. O resultado é que o coração se torna cada vez mais cerrado.

Acostumar-se é simples, inicialmente alguma coisa parece insuportável. Com o correr do tempo talvez acostumemos e já não a consideramos assim tão grave. Não demora muito e ela passa a parecer aceitável.

Você já pensou em seu comportamento? Por acaso já falou consigo mesmo para não acostumar-se com uma outra situação? Claro que não. Essas ações simplesmente acontecem naturalmente. Você foi programado. Conforme você fazia cada coisa ou deparava-se com situações dia após dia, elas foram se tornando um costume.

Sua vida também é governada por padrões habituais, nossos costumes. Camada por camada, você vai formando a sua identidade baseado no que observa, imita e aprende - que é como você se comporta. Repetições aparentemente insignificantes, teias inocentes de observação e crença transformam-se em padrões, depois em cabos inquebráveis, que cercearão ou fortalecerão a sua vida.

Quando um padrão de comportamento se torna um hábito, ele se torna tão familiar que fica parecendo parte de nós, mas, de fato, os hábitos são aprendidos e praticados. Assim como os aprendemos, podemos esquecê-los. Através da observação de si, você pode se tornar consciente daquilo que você se acostumou e lhe faz mal, na sua maneira de agir e de pensar.

Quando você estiver consciente do hábito ou costume que quer modificar poderá esquecê-lo e substituí-lo por um comportamento diferente e mais saudável. Você pode cometer erros e escorregar de volta para velhos padrões. Mas o importante é que não desista. Corrija seu comportamento tão logo perceba que voltou para um velho hábito.

Volto a olhar para águia e a vejo não como me acostumei a vê-la nos últimos anos, como uma bonita e elegante escultura de pedra, mas como um símbolo de força, caráter, determinação e visão. Compreendo o quanto é ruim acostumar-se com um baixo padrão. É gosto pervertido acostumar-se com a mediocridade quando o ótimo está ao nosso alcance.

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