Adeus ao Exoesqueleto

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Adeus ao Exoesqueleto

Yara é uma de minhas amigas mais antigas, dos tempos da faculdade de Psicologia. Perdemos contato naquela época em que a vida se tornou distante demais para ser cúmplice, mas nunca deixei de pensar nela, até que nos reaproximamos.

Yara é uma mulher linda. Dessas que não sabe que é linda, mas é. Que reúne os ardores instintivos de fêmea sensual à inteligência alegre e debochada. Ela é a poesia rebolante e acadêmica que despeja encantos nos caminhos onde passa, seja fazendo as sinapses que impressionam seus ouvintes, contando os seus causos ou rindo dela mesma. Mas Yara andava triste, muito triste, com o fim de um longo casamento, e seu brilho estava opaco.

Ethel é minha amiga mais recente. Mãe de amiga da minha filha. Nos conhecemos na escola, há dois anos, e foi amor à primeira vista. Gosto dela como se aconhecesse há muito tempo. Tem uma beleza de encher os olhos, e o que mais me encanta é ver nela a filha dela, quando for uma mulher, ou vê-la na filha, quando era uma menina. Esse passeio do presente ao passado, e do passado ao presente, costurando o tempo e as histórias, é algo delicioso. Olho nossas filhas, que são grandes amigas, e vejo nós duas, passeando, conversando, rindo e confidenciando as lamúrias do espírito. Sua risada é um deleite, e seus olhos fecham e ficam miudinhos quando a boca fica grande e o rosto se ilumina de contentamento.

Mas Ethel andava triste, muito triste, com o fim de um longo casamento. E se martirizava todo dia dentro desse limbo que é a reconstrução de uma vida depois de tê-la vivido em parceria. E eu estava triste. Sem novidades no trabalho, capenga nas finanças, desiludida no amor, largada com o corpo, preguiçosa com o intelecto. A um passo da autocomiseração. Mas não estava triste o suficiente para me abandonar à tristeza, porque é chato viver triste, e ainda prefiro a alegria. Não aquela histérica, desprovida de sentido, movida pelo desgoverno, mas aquela aconchegada em motivos, apegada a coisas boas. E não achei justo que uma mulher jovem, cheia de sorrisos e quimeras os guardasse dentro de uma casa em vez de apresentá-los a quem tivesse curiosidade em botar olhos e ouvidos sobre ela. Então me lembrei de um curioso.

Há tempos sabia de um rapaz que eu não conhecia, mas que tinha lido o meu livro e se encantara. Queria botar olhos, ouvidos e, se tudo isso fosse bom, o que mais pudesse botar nessa que vos fala, e dissera isso a amigos meus. Eu, que desconfiava de apresentações (sempre davam errado, por que haveria de dar certo?), não topei. Mas tinham falado maravilhas do tal gajo, e resolvi que ligaria. Convidei-o para um passeio de bicicleta. Algo delicado, seguro e sem torcida organizada, e ele topou.

Lá fomos nós, em pleno Parque Villa Lobos, em São Paulo, sábado de sol, manhã azul e verdejante. Na pior das hipóteses, seria um aprazível passeio de bicicleta. Tinha excelentes referências do moço, amigos em comum, e fui tomada pela tranqüilidade de não estar indo ao encontro de um serial killer.

Qual seria a probabilidade de eu gostar de um homem que nunca vi na vida, assim, à primeira vista? Não faço a menor idéia, não entendo nada de probabilidades. E qual seria a probabilidade de continuar a gostar dele, e de ele também gostar de mim, e não se decepcionar, já que tinha lido o livro? Não sei. Só sei que o passeio foi lindo. O céu estava intensamente azul, e a companhia tão boa, e eu tão à vontade com aquele estranho com quem eu tinha a impressão de já conhecer há tanto tempo. E de quem eu gostava mais a cada pedalada, do tom de voz, da entonação, do vocabulário, do riso, do silêncio, da calma, do jeito de falar das filhas, da doçura, das mãos, da boca, da barra da calça dobrada do lado em que ficava a corrente da bicicleta, do olhar. Tudo natural, tão pouco ensaiado.

Depois do passeio, água de coco. Muita conversa, muita vontade de ver de novo, e o convite. Fiquei tão contente. Na mesma noite, Yara, minha amiga linda que até então estava triste, decidiu que faria uma inauguração de seu novo apê. Desde a separação, ela alugara um flat, e vivera numa espécie de limbo - não tinha mais a sua vida, a sua casa, nem tinha ainda a vida nova, a nova casa. Esse estado de coisas indefinidas era muito angustiante, e alugar um apartamento (e tudo que consiste em fazê-lo: comprar móveis, roupa de cama, cortinas, louças, enfeites...) foi o marco do recomeço. E, a festa de

inauguração, o rito de passagem.

Decidi que convidaria meu flerte (a palavra fica a desejar para definir o status daquele homem, porque já era mais que isso, dado o encantamento que sentíamos um pelo outro, mas assumo aqui o dilema e a ignorância de outra que melhor defina o acompanhante), e ele foi comigo. Foi uma noite adorável, por várias razões. Yara estava esfuziante, e percebi quantas sutilezas se anunciavam na noite quente do apartamento sem mobílias.

Tinha uns vinte convidados, e todos se conheciam, mas poucos já tinham me visto antes. Ninguém sabia o que eu fazia, de onde era, qual a minha história, e chegar à festa sem interlocutores prévios fez com que eu me sentisse muito à vontade. Estava cansada de ser eu, de desempenhar o velho papel da Kika Salvi, da mulher falante, engraçada, indiscreta, tagarela compulsiva, daquela que mesmo quando quer ficar quietinha, não fica, porque todos esperam que ela sempre seja assim, eufórica. Foi bom chegar alheia, singela, sem platéia. O melhor de ser estranho é poder reinventar-se, despir-se dos papéis viciados (e já tão gastos...) e ser fresca, nova, liberta. Fui apenas ouvinte, espectadora ávida, da Yara, dos convidados, do meu flerte, de mim mesma, e descobri tantas coisas belas.

Todos estavam sentados pelo chão, porque de mobília havia a cama, a mesa com cadeiras e o que é preciso na cozinha. E uma cortina linda, velas acesas, boa música, comida gostosa e flores, muitas flores trazidas por amigos. Todos eram separados, e naquela rodinha no chão só se falava de amor. De amor que foi, de amor que veio, de amor que solapou o coração. De amor bonito, de amor feio, de amor traído, de amor perdido, de amor pleno. Eu olhava em volta e via Yara, em sua nova casa, com os olhos brilhantes de quem finalmente recomeça, ao lado de seu novo amor, completamente apaixonado, se esmerando para entrar na vida dela, conhecer os seus amigos, fazer parte da sua vida.

Pensei na Ethel, e tive vontade de ligar pra ela e dizer que a vida se renova, que a fase triste vai passar, e que ela vai ser só felicidade. Olhei pro lado e vi o René, e pensei em como é lindo ter surpresas.

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