As Belas Marcas do Tempo

As Belas Marcas do Tempo

Duas vezes fui rasgada ao meio, e duas vezes trouxe ao mundo crias lindas. Verti pernas, braços, troncos e cabeças. Rebentei dois corações, cada um no tempo em que elegi, cada qual pulsando à sua maneira, e nunca mais eu fui a mesma depois disso. Duas vezes experimentei ser remendada, uma por dentro, outra por fora, e serei sempre cicatrizes. E, ao contrário do que possa parecer, acho bonito carregá-las.

Os vestígios das costuras, lembrando-me que não houve espaço o suficiente para que o bebê dentro de mim deslizasse para o mundo sem tanto sofrimento. Penso que, como a gestação, em todo movimento existe um desgaste e uma marca dele resultante.

Da gravidez herdei dezenas - desde pequenas cicatrizes em forma de estrias na pele superesticada da barriga, das coxas e dos seios (que adquiriram dimensões nada modestas no período de acúmulo de reservas para a prole) até tecidos que não voltaram exatamente ao lugar de onde saíram antes da metamorfose procriativa. Viver desgasta, e deixa marcas, em tudo quanto possa ser impresso. Basta olhar no espelho, e está tudo registrado.

Nos vincos da minha boca, me lembro que sorri. E sorri muito, de ladinho, primeiro o lado esquerdo,

depois com o direito, porque minha boca vai assim, primeiro um lado, depois o outro. E quando gargalha, se desdobra, e são dois vincos, mas só do lado esquerdo (de novo ele, o direito deve ser um pouco envergonhado). Olhando a boca nunca enxergo nada triste, nada feio e nada angústia, porque as

trevas, por mais que venham lá do fundo, no rosto aparecem lá no alto, sombreando a minha testa. E é ali que se transformam numa cerca enrugada em que tudo se mistura e se embaralha, e é preciso estar atenta para enxergar o que foi um dia frustração, o que é preocupação, o que foi dor intensa (essa é sem dúvida a ruga mais profunda), o que é lamento, o que é tormento. Cada uma delineada sobre a outra, em paralelo - às vezes uma delas sobressai, às vezes todas se encrespam feito mapa hidrográfico, e às vezes adormecem tão profundamente que até chego a me esquecer de que estão aqui, bem no centro da minha testa.

E por mais inadequado que possa soar "eu nunca faria isso", sucumbo preguiçosa à tentação de afirmar que jamais aplicaria um botox na minha testa, no intuito de apagar dela a minha vida. Talvez eu parecesse bem mais moça com a testa toda lisa (ainda não sei qual a vantagem de aparentar vinte anos quando se tem trinta, e detestaria aparentar quarenta aos sessenta, por isso insisto na postura do "jamais"), mas a dureza e a página em branco que a aplicação da tal enzima faz aparentar é certamente o que mais me incomoda. Acho triste uma mulher dar mais valor à testa lisa do que a tudo aquilo que viveu, e que carrega impresso em seu corpo.

Meus olhos se esforçaram para ver, e se espantaram, se emocionaram e caíram em pranto convulsivo. Foram tantos movimentos, tanto riso e tanto choro que não poderiam nunca ser vazios de tracinhos expressivos, daqueles pés-de-galinhas que a peruada corre no cirurgião para corrigir num afã de ser mais bela e mais amada. E sai de lá com olhos de boneca, olhos ingênuos, de quem se esqueceu que já viu um mundo e uma vida, e com pescoço de cadáver, sem tônus e sem coerência, buscando em golas e em lenços o disfarce para o frescor que não possuem. Falta-lhes o orgulho por serem portadoras de histórias, e sobram-lhes lacunas e tentativas de resgate de uma mocidade que se alimenta do simples fato de ser jovem, sem poesia, sem conquistas.

As marcas estão no corpo, e estão na casa. Contam como é a vida, sem que seja preciso enuncia-la. Na madeira da mesa, há marcas das canecas de chá que tomo enquanto escrevo, todo fim de tarde. Poderia usar um apoio, mas aprecio a marca na madeira, mais do que a madeira incólume. Seus vincos, o desgaste do verniz onde apoio a caderneta de idéias. A poltrona da sala toda arranhada pela gatinha, o tecido puído na beirada. Seria correto proibí-la de afiar as garras na poltrona, ensiná-la a fazê-lo somente em lugar apropriado, e feito isso, reestofar a poltrona de veludo.

Mas não, gosto justamente de olhar a casa e ver as marquinhas da Biju na beirada da poltrona. Essa é uma casa que tem uma gatinha, linda, que as meninas amam, e que afia as garras na poltrona de veludo. No corredor do quarto tem um traço de caneta na parede, e sobre ele está escrito "Alice vai até aqui". Minha filha mediu sua altura e volta e meia encosta a cabeça ali para observar seu crescimento.Se eu tivesse feito isso quando criança, teria levado uma bronca e tanto, e seria obrigada a limpar a parede. Paredes não são lugar para escrever, mas essa é uma casa de crianças. Alice está crescendo, e quase estremeço de alegria quando passo pelo corredor, na ausência delas, e leio "Alice vai até aqui".

Não apago nenhum registro da minha vida, por mais que algumas marcas possam ser consideradas feias. Porque delas me alimento, me identifico e sou capaz de traçar o meu caminho. Para refinar a experiência, e dar a ela os contornos que desejo, e não aqueles que todos os slogans insistem em martelar.

Faço questão de relembrar todo o percurso: tenho estrias no seio porque um dia tive muito leite, e alimentei as minhas filhas. Tenho rugas porque ri, porque chorei, porque me agoniei e porque amei. Tenho cabelos brancos porque me preocupei demais. Carrego no meu corpo as marcas da minha vida, e deixo que elas contem uma história. Só assim sinto que posso continuar a escrevê-la, sempre e do meu jeito.

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