CADA UM COM A SUA BANDEIRA

CADA UM COM A SUA BANDEIRA

Quando tinha dezoito anos, vi um filme que até hoje me arrepia os cabelinhos, "O céu que nos protege", do Bertolucci. Nele, um casal de americanos viaja para o Marrocos e a mulher é seqüestrada por uma tribo de beduínos.

Ela é oferecida como escrava sexual ao príncipe da tribo, nômade, que sai acampando pelo deserto, enquanto ela é feita prisioneira e subjugada pelo xeque. Eles jamais se comunicam senão pelos olhos desesperados (dela) e pelos membros famintos (dele). Aos poucos, como era de se esperar, ela sucumbe ao fascínio de ser domesticada pelo árabe, e se deixa consumir lentamente pela dominação, até a exaustão.

Ela se encanta por ele, e sua identidade feminina ocidental se esvai no desejo de ser súdita daquele príncipe, e a revolta, a dor e a resistência cedem espaço à ânsia pelo amante, ao frêmito do encontro, e cada minuto de espera se transforma na tortura da espera por seu salvador. E aos poucos, como era de se esperar, o árabe, tão contumaz no amansamento da mulher, desinteressa-se dela ao vê-la dócil e cheia de volúpia, e ordena à tribo que a abandone.

Eu era só uma adolescente deslumbrada com as possibilidades da vida universitária e pós-carteira de habilitação, há muito pouco tempo iniciada nas intempéries do sexo e completamente crua no terreno amoroso, mas saí do cinema alucinada, traçando, mentalmente, meu projeto de vida para quando me formasse. Estudava História naquela época, e tinha tudo a ver ir pro Marrocos numa expedição qualquer (já que ainda não era moda ir pra lá na lua-de-mel, a Globo não tinha feito novela naquelas bandas nos idos de 92), seria a minha grande chance de ser escrava sexual de um xeque árabe. Só que na minha fantasia ele se apaixonaria e me levaria com seu bando por toda a eternidade. Como primeiro projeto de vida, até que não estava mal. Só faltou ir ao Marrocos.

Depois desse projeto, tive alguns: ser uma grande cineasta, depois uma grande jornalista, e finalmente uma grande escritora. Com o nascimento das minhas filhas, percebi que queria ser uma grande mãe, e a cineasta, a jornalista e a escritora eram importantes, mas não vinham mais acompanhadas pelo "grande". Me dei conta de que não seria cineasta porque não fui estudar cinema, não me dedicava quase nada ao ofício e por osmose dificilmente aprenderia alguma coisa. Não seria jornalista se não trabalhasse em jornalismo, e sentia um desinteresse tão grande pelo que se passava com a imprensa que no máximo serviria cafezinho à redação, e escritora...Só se eu largasse mão de ter preguiça e sentasse o popozinho na frente do monitor. Foi quando senti que precisava descobrir o que me fazia feliz.

Sempre gostei de escrever, e mais do que gostar, precisei. Era a um só tempo o bálsamo e o combustível que essa forma de vida atormentada e um tanto inquieta carecia. A escrita sempre fora a salvação e o resultado. Nos demos bem, ela e eu, e fomos juntas, em parceria, certamente pela estrada afora, até que a morte nos separe. Não me vejo fazendo outra coisa que não seja escrever, e complemento a vocação com tentativas (muitas vezes frustradas) de mudança de ritmo, tento acelerar aqui, aumentar a quantidade ali, mudar o foco, o enfoque, o tema, o emblema, às vezes vingo, às vezes não.

Labuto, pra não dizer que sou apenas diversão (herança judaico-cristã, também carrego o meu quinhão de culpa). E escrevo, sempre, publicando ou não. Diria que nesta parte estou serena, que não vou na contramão. Mas que o que mais me faz feliz, verdade verdadeira, não é a escrita do trabalho, ou o trabalho da escrita, nem o texto que publico, ou o elogio que recebo, ou a cacetada (muitas vezes divertida) do mancebo, ou o dinheirinho pago pelo texto. O que me faz feliz é muito mais singelo do que isso, de tal ordem que estremeço.

A risada das minhas filhas é uma das coisas que mais me faz feliz. Fazer companhia a elas, ler historinha antes de dormir, levá-las ao cinema e ao teatro. Dar banho nos cachorros, molhar as minhas plantas, beber água de coco, andar de bicicleta, ouvir Chico Buarque e olhar o pôr-do-sol. Encontrar minhas amigas, falar muita bobagem e comer bolo de chocolate. Ficar perto de quem amo.

Volta e meia algum leitor entra no fórum pra dizer que sou dondoca, alienada ou lunática. De alienada não tenho nada. Sei de tudo o que se passa e sou ótima cidadã. Vivo antenada e tenho opinião formada sobre tudo, embora quase tudo me desgoste, profundamente. Sou a favor da eutanásia. Contra a pena de morte. A favor da legalização do aborto. A favor da descriminalização da maconha. A favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Contra o porte de armas da sociedade civil. A favor do uso de células-tronco na pesquisa médica. Etc etc etc. Só não carrego nenhuma porcaria de bandeira. Nem preciso carregar, ou alguém disse que devo?

Acho o mundo uma droga e optei, sim, por viver numa bolha, "lunática", voluntariamente alienada, no sentido de manter um distanciamento daquilo que não posso mudar e do que também não quero fazer parte, embora faça, por ser contemporânea, conterrânea e herdeira.

Escrevo, logo penso. Tenho espaço para isso, daí, responsabilidades. E tento honrá-las. Mantenho uma postura crítica e reflexiva sobre a vida, mas o que de fato me interessa são as emoções e os relacionamentos. Volto, então, ao que me faz feliz, e àquilo tudo que dá significado às escolhas. Gosto de estar entre os meus afetos, e dividir com eles a minha vida, em seus detalhes mais banais, e que a fazem especial. Botar a mesa pro café, esperar para o jantar, contar como foi o dia, ver TV abraçadinho, de preferência fazendo cafuné, depois dar beijo de boa-noite. E sonhar juntos. Se gostar disso mais que tudo é ser romântica, alienada e lunática, prazer: meu nome é Kika.

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