Clarice e Eduardo

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Clarice e Eduardo

Feriados como aquele são o bálsamo de que todos precisam para esquecer as agruras da metrópole e afundar os pés na areia quente.

Nem mesmo o vai-vem dos ambulantes e seus isopores bem fornidos de cerveja e salgadinhos mal-cheirosos poderiam perturbar a paz de um dia azul e ensolarado inteirinho dedicado a ver o mar, a sentir a maresia e a esquentar a epiderme sob os raios outonais.

As ondas vinham fortes e somente os surfistas se arriscavam a encará-las, restando aos mais sensatos a lúdica tarefa de apreciá-las com os olhos, liberando o ímpeto e os sentidos para outras aventuras.

Em meio a ninfetas assanhadas, rapazes com hormônios exaltados, famílias excitadas entregues a algazarras e casais apaixonados, notei um cujo destaque era o silêncio.

Um casal jovem, bonito, munido de livros, revistas e jornais, além de guarda-sol, cadeiras, esteira, água-de-coco e filtro solar fator 50. Vinham para ficar bastante tempo, e a indumentária anunciava a intenção.

Ele era quem mais se concentrava na leitura, e seu foco era claro. Trazia um livro enorme na sacola, algo com quase mil páginas, e se atinha a elas com a compenetração de um vestibulando. Tinha cara de Eduardo, embora pudesse ser um Pedro, um Juliano, um Otávio ou um Lacerda. Mas Eduardo lhe caía feito luva, e comecei a enxergá-lo com esse nome.

Ao lado dele, muito menos concentrada, a moça se remexia na cadeira como quem está com bicho carpinteiro. Uma bela de vinte e poucos anos, devotada à sombra mais que ao sol, e era prudente que ficasse debaixo do sombreiro de areia enquanto sorvia das belezas naturais daquela praia. Mais que isto seria um convite à insolação.

Ela tinha cara de Clarice e certamente seu apelido era doce. Talvez fosse uma Carina, uma Camila ou Cristiane, mas fico com Clarice porque havia algo de Lispector nessa moça, algo que sofre sem saber, e reverbera, com ardores de menina, num magnetismo tal que os grãos de areia dela se repelem, deixando-a sempre lisa e eletrizada.

Clarice se agitava porque lhe incomodava a imersão de Eduardo na leitura. Tão pouco tempo para ficarem só os dois em São Paulo, ela pensava, e agora que o cenário era outro, tão romântico, tão dado à descontração, era com um livro que ele se divertia (e embriagava, e mergulhava, e se envolvia, e se encantava) e não com ela.

Ela lia o horóscopo do jornal, depois a coluna do Simão (e ria um pouco, parte por ser engraçado, parte por desejar que ele perguntasse o motivo e quem sabe assim dessem início a uma conversa), depois fazia as palavras-cruzadas. E Eduardo, submerso

nas letrinhas.

Clarice (que talvez fosse Lili, Clara, Lalá, Lira...) desiste da leitura e simula relaxar sob a sombra enquanto olha a paisagem e as pessoas que caminham à beira-mar. O curioso é que por mais que os dois não falem, Eduardo nota a agitação de sua amada, e interrompe a leitura de seu livro. Os dois ficam quietos, compram dois cocos gelados e observam o movimento. E ficam assim, por mais de duas horas. Algumas vezes ela fez gestos de pretensa aproximação, algo com as mãos, ensaios de carinho, como se fosse alisá-lo, mas mudou a intenção vinda no ar.

Talvez olhasse para ele e imaginasse que seria diferente, que seriam mais afetuosos um com o outro, que teriam mais assunto, que seriam companheiros sem que houvesse um abismo de silêncio ou a necessidade de escarafunchar com tanta força assuntos de feriado. Talvez ela pensasse que seria mais amada.

Às vezes ela baixava o rosto, como quem esconde o choro, e parecia que ia finalmente perguntar "qual é o nosso problema? Por que não conversamos?", e logo em seguida parecia rir de seus próprios pensamentos, não sei se para disfarçar ou para provocá-lo e excluí-lo de seu mundo de desejos. Eduardo, mais absorto nas idéias do que estava pelo livro, olha o mar bem lá distante, o mais longe que enxerga. Não há sentimento algum esboçado na expressão, posso pensar o que quiser: que está tranqüilo, aliviado por finalmente relaxar em frente ao mar, ao lado da mulher que ama, e por poder por um instante ficar quieto, voltado apenas para ele e para a sua paz de espírito.

Posso imaginar que está saudoso da amante, que viajou pra outro canto, e não tem a menor vontade de conversar com a esposa, por mais jovem, bela e apaixonada que ela seja. Posso pensar que está encrencado no trabalho, e que resolveu se desligar, ficar fora de órbita, e não percebe a solidão da companheira. Posso achar que está arrependido de ter se casado, que sonhou com algo diferente, mais ameno, ou mais ardente.

Eu estava ali sozinha, tomando banho de sol, e daria tudo por uma boa companhia, por estar com meu amor, tomando caipirinha, comendo empadinha, jogando conversa fora e dando muita risada, entre beijinhos e mãos-bobas. E o casal a que assistia era o retrato da solidão. O fato é que um mundo acontecia enquanto os dois silenciavam, e tentar adivinhá-lo é ponderar o imponderável.

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