Crônica - Dançar para aliviar

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Crônica  Dançar para aliviar

Tanto brilho e esse sol proíbem sem piedade o projeto de hibernação dominical, frustrando a expectativa recriada a partir da meteorologia na TV (digo recriada porque o plano inicial era um chá de cianureto). Quisera eu poder errar impunemente desse jeito, diante de dezenas de milhões de crédula audiência, planejando sua vida em função da previsão.

Não choveu, não trovejou, nem sequer uma boa nuvem acinzentando a consciência, e o cenário ideal para ir pro inferno escorreu por entre dedos sem vestígio ou alternativa. Penso em Goulart, uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém, fundo sem fundo, e recorro à geladeira.

Nem ovos contam a história do que seria alimentar-se. O queijo branco se assemelha a um cammembert tupiniquim, abrigando uma legítima colônia dos mais diversos fungos. Não convém, digo a mim mesma ponderando, e escolho a fome. O mundo inteiro tem escasso acesso à ração, não serei eu a esfomeada mais ilustre.

Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão. Nessas horas Cake ajuda muito, sua versão de I will survive impele a dança pela sala, deslizo a meia, brinco performances de videoclipe, alço braços. A gatinha branca dança junto, corre e pula e se arregala com my number, a siamesa procura onde esconder-se, eriçada.

Revolvo o corpo embalada, olhos fechados sem contemplação, meu tempo é movimento e pulsação (ando assombrada pela idéia de explodir as coronárias, e essa dor no coração?). At first time I was afraid, I was petrified, thinkin’ I could never live without you… Tanta poeira e pêlo pelo chão e me pergunto em que parte foi parar o asseio com a casa.

Virginianas que se prezam não chafurdam desse modo, e nem os astros nem os astrônomos supõem o peito arfante, o sono leve, a ausência grave de alegria e essa saudade retumbante que me assola, de que servem então as previsões?

Uma parte de mim pesa, pondera, outra parte delira e Goulart sempre ao meu lado, bendito seja amém. Ele e Cake e quem precisa de deus com esses dois? I’ve got all my life to live, I’ve got all my love to give...

Podem os vizinhos me enxergar? A dança segue e é alento, modelito calcinha-tanga, camiseta-velha e meia-rosa, fofa, feito pé de astronauta (menos por ser fofo, já que é duro, e mais pelo volume), e a faixa que se segue é um recado, perhaps, perhaps, perhaps (deus agora deu pra me falar, às vezes usa a TV, outras o rádio, agora é via letras musicais), e temente que sou (ou tento ser), escuto. If you really love me, say yes, but if you don’t, dear, come fast and please don’t tell me perhaps, perhaps, perhaps.

Mais três ou quatro passos e quase atinjo o nirvana, a dança não é apenas um alento como libera endorfina (ou seria serotonina? Nunca sei qual é a do chocolate e qual dos exercícios, sei que as duas dão prazer e isso basta), se algum vizinho tem binóculo está diante de um espetáculo gratuito — fui ensinada a ajudar sem esperar retribuição. Uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta e Cake ainda canta, bom mesmo é o suor já gotejando, purgação em estado puro.

Volto para a canção de Gloria Gaynor na voz do impagável John McCrea, trying hard to mend the pieces of my broken heart e o estômago reclama, há tempo não boto nada dentro dele, o que restava de energia foi-se no balé catártico do amor mal-amado. Se Deus continuar a falar comigo, hei de buscar um psiquiatra, logo eu que sou atéia, por que não canta em outra freguesia? Sigo fervorosa em minha prece, uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente e esse sim amém.

Não devo ligar, não devo contar, não devo evitar que tudo passe, nosso amor era inventado (mas nem assim belo como o escrito por Cazuza) e de invenção o céu está cheio. Nem nuvem ou cianureto ou Gloria Gaynor, queria agora uma vassoura mágica e comida para o corpo, ou apenas força pra comprar, o que requer mudar o figurino e me ausentar da casa-útero, bom mesmo é ser bebê. Uma parte de mim é só vertigem, outra parte, linguagem.

Benditos sejam os enlatados, verifico a validade e quase louvo à sardinha. Duas fatias de torrada e voilá meu sanduíche, que nem o desamor justifica adoecer, e sem meu corpo não há meio de dançar ao som de Cake ou almejar outro arrepio, feito aquele já remoto, mas tão forte quando te olhei a primeira vez. Como na música do Jairzinho, gostar geralmente é assim, nunca é sempre fácil...

Cansada, nutrida e aliviada (pelo suor saiu a dor, e em seu lugar veio a canção, e a poesia de Goulart), acaricio a gatinha, tateando sob a cama atrás da outra, arisca e tonta com o baile. Olho a varanda e o sol me olha, ameno e rosa, esquentando as bochechas. E respiro, sem tranco, nem barranco, o entardecer. Traduzir uma parte na outra parte, que é questão de vida ou morte, será arte?

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Assuntos relacionados: motivação música dançar dança crônica

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