Do Abismo à Epiderme

Do Abismo à Epiderme

Fico alarmada quando o corpo se apequena. Quando a vontade se avoluma, e pulsa um troço apaixonante, que inebria, incandescendo as entranhas, deixando torpe o que há tão pouco conseguia se esconder.

Brotam fissuras sobre a pele-faz-de- conta, sobre a camada imaginária que impede o transbordar de sensações. Guardada assim, encapsulada, a volúpia não supõe desproteção, e tal é o susto quando a capa estremece que a agitação vem redobrada. Até achei que a pele estava rebentando. Retive os músculos, num impulso constritivo, e apelei à sensatez que não deixasse a carne viva. Não me deixe não me deixe não me deixe eu repetia, já sem saber onde escorar o miolo quente. O corpo simplesmente não cabia nele mesmo, e a anatomia alvoroçada exigia libertar-se.

Do Abismo à Epiderme porque a pele, já esgarçada, não continha os seus segredos, e latejava ansiosa por afagos. Ela queria o arrepio, o encrespamento de seus poros tão aflitos, e mais que tudo a onda quente e deslizante num contínuo crescente. O esmagamento, era isso, uma pressão tão impiedosa que trucidasse a resistência, e revelasse, no estertor, a plenitude da entrega. Ele podia fazer isso, se quisesse. Deixar de lado o tatear e fagocitar-me vorazmente, arrebanhando em sua membrana toda agonia de ser frouxa. Passar do estado sólido ao pastoso em seus braços, era tudo o que eu queria.

Então gritei, num tranco agudo, estrondoso, a aflição. Para purgar ou simplesmente exercitar a expressão, gritei de medo de estar solta. De sentir reverberar os solavancos entre veias, feito variz em ebulição, aturdindo a consciência até ser só vapor de miolo mole, vontade de chorar e farrapo de mulher. E ele assistia.

Meio alheio, na esperança de ser jorro passageiro, inerte. Olhava tudo sem ver nada, esmiuçandonos meu gestos as razões desse suplício.

E tem razão maior do que orbitar, homem de deus? Sou satélite de você, numa incansável dança do acasalamento, sempre pronta, sempre pronta, não enxerga? Por quanto tempo eu teria que dançar, e orbitar, e ser satélite do meu astro ofuscante, até a total calcinação? Era tão simples o impasse, bastava me espremer afugentando esse tormento (e os outros,as mazelas, alguma chaga, a água salgada que vazava sem aviso), feito laranja suculenta, aperta e sai, sai todo o sumo, meu desejo é ser bagaço.

Tanto alvoroço e ele longe, ao meu lado mas tão longe, nem podia imaginar. Não podia porque supor tal desespero exigia ouvido supersônico, da pulsação acelerada, do sangue ebulindo pelas tripas contorcidas, do tecido arrebentando. Não podia porque afagava a superfície, sem caber na percepção a urgência por seu corpo. Não podia. E não cabia ao desespero revelar essa aflição, porque só eu estou debaixo de minha pele, e o que explode nesse mundo não comporta companhia.

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