EVOLUÇÃO ÀS AVESSAS

EVOLUÇÃO ÀS AVESSAS

Tenho horror a feminista. Devo ao movimento, é óbvio, os direitos da mulher, todos aqueles que a constituíram cidadã, e não apenas mera propriedade do esposo, e acho louvável que tenha havido, no processo histórico do mundo, as admiráveis feministas.

Mais que igualdade entre os sexos, acho importante, hoje em dia, que se fale em direitos humanos, em cidadania e em direitos da mulher - tendo em mente não mais o velho ranço do "somos tão capazes quanto os homens", mas as habilidades (e limitações) de cada um, definidas, muitas vezes, pelo aparato biológico. Ninguém mais ignora o papel dos hormônios sobre o comportamento humano, e até a pena é diferente quando considera a TPM um atenuante num crime cometido por uma mulher nesse período.

Mas, cá entre nós, a máxima do "a gente também pode", essa coisa da mulher-macho que virou quase uma super-heroína pós-moderna me enche tanto a paciência que chega a dar vontade de fuzilar as causadoras disso tudo - e também as seguidoras.

O fim do matriarcado aconteceu ainda na Idade da Pedra, quando o Homem se deu conta de que as mulheres não pariam filhotes de deuses, e sim filhotes deles próprios. Tão logo o macho atinou para o fato de que se reproduzia, imediatamente parou de idolatrar a sua fêmea e sentiu-se dono e detentor da genitora de sua prole. Antes mesmo de usar com maestria o polegar opositor, descobrir o fogo ou demarcar a propriedade privada, o homem descobriu que fecundava sua mulher, e teve então origem o glorioso patriarcado.

De lá até aqui, foram centenas de milhares de anos, e muitas foram as conquistas para que a mulher deixasse de figurar como objeto de seu homem. Podemos estudar, votar, dirigir, ganhar dinheiro, ser altamente especializadas naquilo que escolhemos. Somos cidadãs do mundo, temos opinião própria, participamos ativamente da cultura, política e economia. Dominamos o mercado de trabalho, movimentamos o mercado financeiro, fazemos a ciência avançar. Somos plenas, femininas, eróticas, livres para gozar e viver tórridas aventuras sem nenhum compromisso. Somos gostosas, consumimos alta tecnologia em cosméticos, temos personal trainers magníficos.

Somos bem-sucedidas, nossa carreira é um foguete rumo ao infinito e nosso corpo é um estouro de formas que beiram a perfeição. Somos mães se desejarmos, mas a maternidade é uma opção. Há tanto o que viver que não nos resta tempo para isso. O nosso homem é quase um acessório opcional, como os tantos do carro novo (e lindo!) que compramos.

Não precisamos dele pra pagar as nossas contas (cruzes, depender de homem, eu?!). Sabemos administrar nossas finanças e, para tudo o que não sabemos, existem as Páginas Amarelas. Na pior das hipóteses, vem um encanador bem gostosão fazer o serviço, e de lambuja ainda ganhamos um orgasmo.

Relacionamentos duradouros são tão escassos quanto mulheres sem botox ou silicone porque exigem sinceridade. E como ser sincero quando a palavra de ordem é competição?

O feminismo pioneiro, desbravador, que conquistou nosso direito à dignidade foi e sempre será merecedor de louvação. Mas essa bandeira mesquinha e insatisfeita carregada pela turba rançosa do refrão "a gente também pode" fomenta incansável a discórdia entre os sexos, e cria, sem notar, robôs supostamente auto-suficientes que de tanto medo da dominação atávica se mantêm eternamente sós.

Não sou feminista, nunca fui. Sempre fui avessa ao machismo e a qualquer tipo de discriminação contra a mulher. Sou pela liberdade, por um mundo mais justo e amoroso. Mas declaro incontida que adoro cozinhar, botar uma mesa bem bonita e esperar o meu amor para jantar, toda cheirosa. Ter sucesso na carreira é uma delícia, desde que eu possa estar em casa pra jantar com minhas filhas, dar banho nelas e contar historinha antes de dormir.

Vida social, cursos e amigos são importantes, mas não mais do que o tempo destinado a conversar com meu amor, beber um vinho à luz de velas e fazer um cafuné. Gosto de ler, de ver TV, de caminhar, mas não pensaria duas vezes se o tempo que eu tivesse para isso competisse com o tempo de um chamego mais erótico - e quem disse que sexo não pode ser um excelente exercício?

O fato é que não sou uma super-heroína e não dispenso o meu herói. Eu o quero perto de mim, sempre que puder. Seja para me incentivar, para ajudar a pagar conta ou simplesmente me embalar na hora de dormir. Sou capaz de fazer tudo, sozinha. Mas a dois é mais gostoso.

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