O outro em mim

O outro em mim

O que nos faz gostar de alguém? Podemos estar numa caminhada sem destino, ou na fila de um café, quando somos subitamente surpreendidos por um olhar, um sorriso, um gesto de mãos que parece instaurar uma nova era em nossas vidas.

Assim, sem mais e de repente - do automatismo de viver fez-se a existência doce e inspiradora de outro ser, cuja lembrança é um acalento e sua presença o desejo soberano. De onde vem a brisa leve, o encrespamento dos sentidos e a alegria de num instante vislumbrar intimidade, ainda que não haja nem a introdução protocolar de sobrenomes e afins, quando tudo quanto existe é uma boca escancarada que nos fita amiúde?

Vêm então os cerebrais de falatório incisivo: "Isso é predisposição e projeção, já que gostar exige convivência, leva

tempo e dá trabalho". Que chatos, eles. Uns verdadeiros ogros afetivos. Não devem nunca ter sentido essa invasão surpreendente, à qual é impossível nomear (bateu o santo? Rolou uma química? Obra do cupido?).

Dá-se assim, de supetão e sem razão, e deixa a alma impregnada de vontades. O que será que ele faz? Gosta do quê? Será sensível? Comovente? Riremos juntos? Vai me enxergar? E me entender? Trançar as pernas nos lençóis e adiar o amanhecer? Se o olhar é mesmo o espelho d’alma, a dele é linda e delicada.

Descobrir uma pessoa é parte descoberta, parte construção. No princípio está a vontade, que embolada à informação resulta numa imagem. A captação é seletiva, e necessariamente generosa. Porque quando gostamos de cara de alguém, a felicidade é tão imponente que registra, do encontro, a expressão reforçadora do desejo.

Não raro gostamos de tudo o que remonta nossas mais caras qualidades. Ou daquelas que nos faltam. E pouco importa que assim seja - enamorar-se é tão raro (e delicioso) que relevamos imprudências, mesmo as que nos levam a conclusões equivocadas. Ainda não é hora de dar espaço à razão. Se o deleite está no sonho, que o encontro seja uma longa noite de outono, azul e estrelada.

O segundo movimento desse ato é dar ouvidos (ou tentar) ao que o "muso" inspirador nos conta a seu respeito. O desconcerto pelo impacto inicial deu lugar à excitação auto-confiante, e se chegamos a esse ponto é porque a recíproca imperou. É quando tem início o marketing pessoal: a saborosa eleição do que queremos que o outro saiba (e proporcional omissão do que convém não revelar).

Talvez seja o momento decisivo, quando aguçamos os sentidos e entendemos o que de fato nos fisgou. É um momento glorioso, daqueles em que temos a chance de inaugurar uma nova biografia, de reinventar nossas tendências, já que o novo não tem vícios, nem trunfos, nem poder de machucar. Nenhuma relação de poder ou dependência se criou, nenhuma desigualdade, e o frescor desse período inunda os corações de esperança. A aridez dos desencontros é arremessada para longe. E impera a gentileza, a boa vontade e o interesse.

Vem então o segundo movimento, realista e sem espaço para enganos. É a hora de ticar cada item do check list e averiguar o potencial da relação. E é aqui que o bicho pega. O que nos faz continuar gostando de alguém? Penso no quanto é comum (ainda que me encha de espanto) a relação de semelhança entre os casais. No tal do check list, um verdadeiro pente fino se entranha no olhar, de modo a esgotar tudo quanto possa destoar do ideal. E aqui reside meu espanto. Quando gostamos do outro porque ele se parece conosco, gostamos dele ou do que há de nós nele?

Claro que existem princípios. Eu, por exemplo, jamais poderia amar ou conviver com um fumante compulsivo, admirar quem paga um "cafezinho" ao policial rodoviário, dialogar com quem freqüenta a Pró-vida, com quem consome prostituição infantil ou é contra o aborto. São princípios. Mas o check list não pára por aí.

Conheço casos em que o "amor da vida" da pessoa não passa de um reflexo dela mesma (e, nesse caso, obviamente o mais fraco sucumbiu às preferências do mais forte). O gosto por músicas é o mesmo, o time do coração, o restaurante, a posição sexual - tudo exatamente afinadinho. Seria mesmo amor ou uma espécie de deserto narcisista em que só existe espaço para o ego? Um encontro feito esse perpetua a estagnação, além de traduzir-se em solidão - quem se relaciona com seu duplo não estabelece troca com ninguém. O novo é essencial. Aquilo (e aquele) que agregue coisas novas à emoção e à razão, que comova e espante, e celebre, sempre que possível, a diferença.

Talvez o que me faz gostar de alguém seja justamente a impressão de que ali esteja uma outra forma de olhar, um equilíbrio para aquilo em que me excedo, e de que careço. Um complemento. E se aparecer assim, trazido pelo vento, com a promessa de encaixe, não resisto a me jogar. E torcer para que não doa, na tentativa de ajuste, quando a peça for maior ou menor do que o espaço.

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