O papel social da mulher ociosa

O papel social da mulher ociosa

Estava eu esturricando a pele alva à beira da piscina, em plena terça-feira, numa manhã quente e luminosa, enquanto vigiava as brincadeiras subaquáticas das crianças e apurava os ouvidos no cd do Tom Jobim.

Fazia um esforço hercúleo na tentativa de esquecer o déficit bancário, o condomínio do prédio atrasado, o calote que tomei de um trabalho, o barulho estranho no motor do carro, a resposta de emprego que ainda não veio. Se me tornasse um abatimento ambulante, daí mesmo que nada iria ficar bom, e resolvi me distrair, em companhia das crianças, que mereciam ser poupadas de tanta aridez, e fomos à piscina.

Se não posso antecipar (e muito menos controlar) o que virá, tento aplacar o que está próximo. E existe sempre uma escolha - enaltecer o sofrimento, muitas

vezes legítimo e necessário, ou revertê-lo numa experiência menos desgastante, mais amena, menos trágica, o que não significa leviandade com os sentimentos ou superficialidade. Questão de estratégia de sobrevivência na selva (esta selva pós-moderna que nos consome e enlouquece lentamente) e de adaptação da espécie - é isto ou a morte.

Não que se possa concretamente morrer das agruras da existência, mas morre-se aos poucos sugado pelas exigências que a vida contemporânea nos faz, tantas e a um grau tal que, exauridos, vivemos praticamente sem alma.

Nossa alma se esvai na falta de tempo para o lazer, para o ócio, para o amor, na falta de dinheiro para as contas, na falta de sono, na falta de emprego. Cair na armadilha dessa consumação sem fim é facílimo, e muitas vezes imperceptível, e daí essa necessidade de criar mecanismos próprios que nos garantam (ou causem a ilusão de garantir) sanidade. O meu é esse, a que chamo "reversão".

Voltando à piscina. Era um dia de muita aflição. E existiam duas formas de lidar com isso: alimentando a aflição fazendo de tudo para justificá-la ou buscando alternativas de alívio. O simples fato de tomar banho de sol com as meninas em vez de manter rigorosamente a rotina da semana anunciava um grande empenho, já que dificilmente teríamos deixado de lado as inúmeras tarefas corriqueiras para um banho de piscina.

Porque relaxar é tão importante quanto qualquer cumprimento de tarefa, ou até mais, e somente abandonando brevemente as obrigações é que nos damos conta disso.

As meninas estavam exultantes e eu completamente relaxada, e aproveitei a baixa audiência do público naquele dia e horário pra botar o biquininho mais minúsculo da gaveta. Teria a paz e o bronzeado que eu tanto merecia.

Com o Tema de Amor por Gabriela no ouvidinho e lembrando do meu moço bonito, no pensamento e velho e bom clichê "isso é que é vida!". Então notei que estacionou um caminhão bem diante do portão que dava acesso à piscina, mas que raramente era aberto. E que foi do "raramente" ao 100% de abertura bem no instante em que eu estava estatelada sob o sol, com meu biquininho indecente, toda suada e com ares de madame ociosa. Minha vontade era correr, bem rapidinho, pegar a canga e me enrolar, porque a seqüência inevitável dessa cena seria a entrada de um bando de fortões carregando alguma coisa. E obviamente eu não estava enganada.

Em um minuto saltaram oito ou nove homens uniformizados com macacões acinzentados, todos fortes e parrudos, de luvas grossas e olhar rústico. Estávamos a poucos metros de distância e meu constrangimento chegava a retumbar, mas estava petrificada pela presença da platéia e tentava avaliar o que seria menos embaraçoso, continuar ali exposta, quase sem respirar, ou levantar e caminhar até a mesa onde estavam as minhas coisas, o que dariam uns dez passos, pelo menos.

Dez passos de pura humilhação, de reboladas semi-nuas e perigando tropeçar, e calculei que ser estátua, àquela altura, causaria menos estardalhaço. Eles fariam a tal entrega e iriam logo embora. E foi o que eu fiz, tentei ser confundida com o chão de pedras da piscina.

Notei que a entrega era enorme. Bem pesado, daí a razão de tantos homens. E mesmo assim o esforço que fizeram para tirar o objeto do caminhão foi descomunal, o que fez com que antes mesmo que dessem o primeiro passo em direção à quadra já estivessem ensopados de suor. O sol estava quase a pino e senti uma enorme culpa por estar ali tão à vontade, refrescada pela água de coco, curtindo meu maestro predileto e vigiando minhas meninas enquanto aqueles pobres homens esfolavam o corpo inteiro atrás do sustento da família, e achei a vida muito injusta.

Imediatamente, a aflição que eu sentia pelas contas a pagar, pelo saldo negativo, pelo calote que levei, pelo carro com defeito e pela contratação que ainda não veio foi substituída por um sentimento de injustiça, de que o mundo estava todo errado.

Afinal, eu, desempregada e cheia de problemas, tentava abrandá-los na beira da piscina, enquanto aqueles homens, trabalhadores, provavelmente jamais teriam a oportunidade de um momento como aquele nem mesmo em suas férias.

Estava quase absorvida pela idéia de uma revolução social quando eles finalmente deram início ao transporte do objeto para dentro do condomínio, e o questionamento das desigualdades sociais deu lugar, de novo, ao embaraço e à timidez. Conforme eles iam se aproximando, eu ia lentamente me afundando na espreguiçadeira, agora não somente com vergonha do meu corpo seminu, mas também de estar toda formosa esparramada sob o sol àquela hora em plena terça-feira. Senti vergonha de ter queixas e me afundei, crente de que seria apedrejada se os fitasse.

Com a proximidade notei um alvoroço, um rebuliço adolescente, e num ato de ousadia olhei pra ver o que ocorria. Não encontrei uma turba oprimida, de olhar furioso ou fustigado de cansaço, nem a revolta que eu pensei que enxergaria quando botasse os olhos neles lá do alto da piscina. Eles eram um emaranhado de músculo exaltado, suor e adrenalina, mas tinha ainda ali espaço para admirar, na travessia da piscina, a madame de biquíni. Todos de olho arregalado, sobrancelha feito radar em operação e sorriso disfarçado de menino.

Só me restava, àquela altura, recompensá-los por todos os esforços, e me desculpar, de alguma forma, pela opressão e ostentação a que estavam expostos (e a que eu os tinha exposto, sem querer) no ambiente de trabalho.

Imbuída de um espírito altruísta, compartilhei com eles o que podia. Se não podia convidá-los à piscina, tratei de corrigir a postura, tão afundada de vergonha, empinei o peito e cruzei as pernas. E, é claro, retribuí todo o fascínio da platéia com um sorriso. Porque o papel social da mulher ociosa é dar alegria a quem trabalha.

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