O processo interno da separação

O processo interno da separação

Toda separação inclui dois processos: o externo e o interno.

O externo é a separação formal, a parte jurídica, a partilha dos bens, as comunicações feitas aos filhos, familiares, amigos, a guarda dos filhos, pensão etc. O processo interno da separação é o processo psicológico e emocional. Muitas vezes a decisão de separar-se poderá estar relacionado com a infância.

O modelo de relação dos pais que a criança tem permanece arquivada em seu inconsciente e pode fazê-la agir conforme a referência de relação que foi registrada. Uma das partes pode se dar conta de estar repetindo ou, ainda, com medo de passar pelo mesmo que presenciou na infância, como brigas e discussões freqüentes. É freqüente filhos de alcoólatras casarem com outro alcoólatra.

Mas o processo interno começa mesmo quando decididamente você chega a conclusão que não dá mais. Nem sempre é fácil chegar a essa conclusão. E, se ainda houver dúvidas, pergunte-se: "Me sinto insatisfeita com qual situação? Meus valores coincidem ou conflitam com os da outra pessoa? Quais os objetivos que ainda temos em comum? Compartilhamos responsabilidades, decisões e compromissos?" Ou seja, reveja como está o vínculo, a relação.

E, por fim, é importante saber se ainda há amor. Pergunte-se: "Amo essa pessoa? Quero continuar a viver com ela? Quero continuar a ser tratada da maneira como tenho sido?" E ouça todas as respostas. Se ainda existe amor, reflita se não é possível reconstruir a relação e tente mais uma vez o diálogo.

Além de todo esse questionamento, não esqueça que o relacionamento é feito a dois e, para que exista, é necessário que ambos queiram. Se um não quer mais, o relacionamento se desfaz de qualquer maneira. A sua parte é de 50% e você não poderá fazer 100%. Assumir o papel de vítima: "ninguém me ama, ninguém me quer", de nada irá ajudar.

É possível, apesar de não ser comum, separar-se sem agressões, manipulações, jogos de culpas, perseguições, mas tentar despedir-se do outro por chegar a conclusão de que não existem mais vínculos, objetivos em comum, não existe mais amor. Claro que nem sempre é fácil assumir tudo isso e ser apenas racional, mas é preciso, nesse momento, dar espaço para que cada um reconstrua sua vida sem chantagens. Como também é preciso dar espaço para a tristeza pelo término de uma história que chegou ao fim.

Se um de vocês ainda sente amor, é preciso questionar que amor é esse, unilateral, sem troca, comunicação. Afinal, antes de mais nada, devemos amar e respeitar a nós mesmas. Mas durante esse processo o que mais perdemos é o respeito pelos próprios sentimentos e o amor-próprio. Contentar-se com migalhas de amor é o maior sinal de que deixamos de nos amar. O mesmo vale para quem se deixa ficar em depressão, querer morrer, ou sair fugindo da relação, sem assumir a responsabilidade por tudo aquilo que um dia se acreditou.

Outra atitude destrutiva é o desejo de vingança, "Se eu não tenho ninguém mais vai ter", como continuar dependente financeira, física ou emocionalmente. Nada disso irá ajudar no processo de reconstrução. Reconstruir não significa querer viver tudo aquilo de novo, ainda que seja com outra pessoa. É muito mais aprender com a experiência passada, refletir sobre os erros, acertos e viver muito mais consciente do que se deseja e espera de um relacionamento. É se permitir unir-se a alguém só depois de ter encontrado a si mesma.

Evite agir sem pensar, entrando em relacionamentos apenas para suprir carências, que na verdade, não serão supridas dessa forma, muito pelo contrário, poderão ficar mais intensas e potencializadas e com maior tendência em repetir o mesmo processo com outra pessoa.

Por mais que a parte formal da separação tenha sido resolvida, o processo de separação ainda se estende por algum tempo, ao menos do ponto de vista emocional. Isso porque passamos, ainda que inconscientemente, por um processo de luto. Esse período varia em cada pessoa, podendo durar de seis meses a dois anos.

O importante é se permitir elaborar cada uma das fases para poder se recuperar e reconstruir. É necessário elaborar a perda - sem negar, aceitar a dor que o processo provoca, sem punir-se ou fugir do que estiver sentindo. Agora é o momento de fazer mudanças, uma verdadeira reforma emocional através da crise que está passando, elaborando e transformando seus sentimentos. Só assim conseguirá reconstruir sua vida sob alicerces firmes e muito mais estáveis e seguros.

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