O vôo da mamangaba

O vôo da mamangaba

"A audácia é uma das qualidades mais preciosas do ser humano. Se lhe falta isso, ele nunca irá muito longe"

Dr. Alexis Carrel, médico francês

No início do século XX, a ciência declarou as mamangabas aerodinamicamente incapazes de voar. O peso do seu corpo em relação a invergadura de suas asas é desproporcional, explicaram, por isso as mamangabas não estavam habilitadas para voar.

Contudo, a despeito do que a ciência afirmou, as mamangabas podem voar. O vôo é o modo mais eficiente que as abelhas e seus semelhantes têm para ir das colméias até as flores mais próximas, apanhar néctar e voltar. E o fazem. Por sorte as mamangabas não lêem revistas de ciência. Se o fizessem, nunca mais se atreveriam a sair do chão.

Isso nos leva a crer que vale a pena questionar algumas supostas verdades, ainda que muitas vezes nos tornamos vítimas de desprezo e incompreensão. No começo do século XVI, o astrônomo Nicolau Copérnico virou o mundo científico de pernas para o ar.

Até aquele momento havia prevalecido a teoria do Universo geocêntrico de Ptolomeu. Copérnico alterou tudo anunciando que o Universo era, de fato, heliocêntrico - isto é, que todos os astros e planetas giravam em redor do Sol. De repente a Terra tornou-se nada mais nada menos do que um planeta girando ao redor de uma bola de fogo.

A teoria de Copérnico abalava dois mil anos de tradição científica e usava a matemática para provar que todos estavam errados. O modelo heliocêntrico explicava com sucesso irregularidades astronômicas e, hoje em dia, é uma verdade absoluta. Mas Copérnico arriscou-se ao ridículo, ao ostracismo e até mesmo à morte para divulgá-lo.

Através dos séculos, outros também enfrentaram a tempestade de desafiar o pensamento tradicional e a verdade absoluta da época. Cristóvão Colombo, Sir Isaac Newton, Charles Darwin, Albert Einstein, Pablo Picasso, Wolfgang Amadeus Mozart foram alguns deles.

Lembro-me da história de Kierkegaard sobre o viajante solitário que chegou à vila nas terras altas e viu que a estrada à frente estava bloqueada por uma montanha. Cansado e desanimado, ele sentou-se e esperou que a montanha se movesse. Anos depois, ele continuava esperando, sentado no mesmo lugar, idoso e decrépito.

A essência da mensagem de Kierkegaard é que os céus não movem montanhas. Nós é que precisamos escalá-las ou encontrar uma trilha que as contorne. Se esperarmos pela montanha mover-se ou abordá-la da mesma forma que os outros sempre fizeram, estaremos perdidos, mesmo se não o percebermos.

De vez em quando precisamos de algo mais: a disposição para questionar as temporárias verdades absolutas ou simplesmente ignorá-las como faz a mamangaba. Ela simplesmente voa.

Durante boa parte da vida, repetimos antigos hábitos e reações. Partes de nossa rotina diárias são repetidas milhares de vezes. Fazemos sem questionar se poderíamos fazer melhor... E, assim, negamos o melhor de nós mesmos, de nossos talentos e potencialidades, de nossa criatividade.

Portanto, "agite" sempre, altere a rotina. Questione verdades. Mude hábitos antigos. Vire mais uma página. Cultive o espírito de ter esperanças, olhe para cima, para fora e para frente. Voe. Cercas não foram feitas para quem tem asas.

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