Os vazios conjugais e seus recheios

Os vazios conjugais e seus recheios

A cena era a seguinte: Camille com a toalha enrolada no cabelo, braço estendido sobre a parte aberta do portão, a mão oposta na cintura, retesada. Carne da boca represada pelo maxilar teso e cenho franzido de aflição, um olho no marido se afastando no automóvel em primeira, o outro em mim, que chegava em hora imprópria. "Boa sorte", dizia o Josué pelo vidro abaixado da janela, enquanto engatava uma segunda e deslizava rua afora, sorrisinho sádico no canto da expressão.

O riso dele era a tristeza dela, e todos os conflitos (e as diferentes formas de lidar com eles) estavam estampados naqueles dois segundos de lábios estendidos exibindo dentes (dele) e brutalmente fechados, quase entroncados (dela). Seria um péssimo momento para a chegada de qualquer outra visita, mas me senti privilegiada por poder radiografar o instante do abismo de um casal anunciado nas sutilezas rapidamente dissipadas na despedida do portão, mezzo expulsão, mezzo abandono.

Cami e Josué há tempos eram o meu casal predileto. Porque eram companheiros e tinham algo incomum nos casais de hoje em dia, senso de humor. Não tinham muito nhénhénhém, mas a casa era gostosa e acolhedora, e dava vontade de ficar, horas a fio, denunciando um lar feliz. Mas aquela cena logo na entrada da maison da alegria não era condizente com a imagem que eu fazia da dinâmica conjugal, sem nenhuma nesga de bom humor (ao menos não da parte dela, que continha as lágrimas e hesitava entre ser francesa ou italiana) e perguntei o que se passava.

"O cavalo do meu marido foi pro analista, e acho bom ele voltar bem bonzinho, ou vai ganhar um prato de capim". Ulalá, nada como uma boa dose de cotidiano para desfazer as fantasias. Percebi em minha amiga a densidade de uma panela de pressão, e tentei ser o ombro e o ouvido que ela carecia para desanuviar. Suas queixas nada tinham de excepcional: Josué andava grosseiro, estressado com o trabalho, desatencioso e dando patada em quem lhe dirigisse a palavra. Ela, que amava o marido e era toda devoção, só queria seu quinhão de acolhimento, e era vítima de coices infernais que assolavam o coração de esposa-e-amante.

Enquanto a escutava, fiquei pensando nas dificuldades conjugais de todo mundo. Muda a época e o endereço, mas há nisso um traço quase universal: a mulher quer mais carinho, mais diálogo, quer ser o refúgio e o bálsamo do amado, e não o seu saco de pancadas. Mas o homem, esse ser tão pouco dado a sutilezas, parece tão mais apto a grosserias quanto mais íntimo estiver de uma mulher, e aqui se criam os abismos. Enquanto ouvia Camille imaginava as relações feito bolhas flutuantes, que se tangenciam e jamais se interpenetram. E me dei conta de que a razão das relações é exatamente a tentativa do diálogo. No dia em que houver esse equilíbrio, elas acabam, porque termina a busca pelo tom que as equalize.

Dias depois, voltei à casa de minha amiga. Dessa vez, o cenário era outro. Ela sorria, um sorriso malicioso, e o doravante cavalo e degustador de um bom capim me recebia com honras de princesa. Era ainda melhor que a minha velha fantasia do casal que eu adorava, desbocado e acolhedor, só que agora mais sonoro, porque além de Camille, o doravante eqüino também se pronunciava entusiasmadamente.

"Kika, eu não agüento mais" dizia a francesinha, com olheira de noites mal dormidas (mas muito bem vividas, diga-se de passagem) e postura de exaustão. "Há tempos que eu não ficava desse jeito!". Que ótimo, comentei, o analista então fez bem ao seu varão! "Fez bem demais", queixou-se ela, "mal posso andar". Ulalá, pensei comigo, que maravilha estar casada há treze anos e ter "queixas" dessa ordem, mas então a francesinha esclareceu.

"Não é dessa parte que eu reclamo. Isso tá ótimo, só alegria. O problema é o que o bicho agora deu pra falar, desembestou, ele fala antes, fala durante, fala depois, o bicho não pára de falar. Até parece uma comadre tagarela, assim eu vou enlouquecer!". Fiquei olhando a minha amiga, ares de estafa, esparramada no sofá, e não entendi direito o problema. Mas ela não se queixava justamente da aridez de seu marido? Que era fechado, muito calado, não falava de sentimento e nunca discutia a relação? "Pois é, eu achava isso ruim, mas homem que fala é bem pior. É um inferno, parece mulher! Eu quero o homem mudo de volta, aquele que acordava mal-humorado e me deixava ler o jornal em paz, que transava e apagava, sem ficar me elogiando. É muito desgastante!". Ela estava realmente consumida, transtornada com as transformações de divã do ex-eqüino.

E eu, perplexa, já não sabia mais se ria ou se chorava. Camille quebrara todos os meus paradigmas de mulher, e percebi que homem fechado é frustrante, porque afasta, cria barreiras, mas homem aberto dá trabalho, porque demanda a atenção que estamos acostumadas a pedir e não a dar. Talvez seja mais fácil vestir a carapuça de fêmea carente e passar a vida demandando (e reclamando) do que olhar de frente para o outro e abraçar as suas dores, os seus medos e a sua história, sem que ninguém precise ser mocinha, bandido ou herói para ninguém.

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