Pessoas com deficiência - a nação (quase) invisível

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Pessoas com deficiência  a nação quase invisível

Mara Gabrilli e Claudia Matarazzo.Foto: divulgação/ Melhoramentos.

Você sabe como um deficiente físico gostaria de ser tratado? Sabe quais são seus maiores anseios e desejos? Já parou para pensar como comunidade em geral ou Estado deveriam lidar com os portadores de necessidades especiais? Se ainda não, prepare-se para encarar as respostas que Claudia Matarazzo, em parceria com Mara Gabrilli encontraram para essas perguntas. O estudo das duas resultou no livro "Vai Encarar? - A Nação (quase) invisível de pessoas com deficiência" (Melhoramentos, 2009).

Segundo o censo de 2000, do IBGE, pelo menos 30 milhões de pessoas no Brasil apresentam algum tipo deficiência. Isso quer dizer que uma em cada oito pessoas tem problemas físicos, mobilidade reduzida, tem algum tipo de deficiência mental, visual ou auditiva, por exemplo.

No estudo que fez, Claudia descobriu que as pessoas com deficiência realmente são diferentes em alguns aspectos. Mas se por um lado estão acostumadas a enfrentar grandes dificuldades, por outro não conseguem administrar uma barreira nada física: "Elas preferem os obstáculos concretos do que a polida barreira da indiferença usada para ‘não invadir’ ou ‘ofender’ - e que acaba revestindo-as com uma dolorosa capa de invisibilidade", lamenta Claudia.

livro

Divulgação/ Melhoramentos

No livro, ela aborda temas simples, mas que podem fazer toda a diferença para o cotidiano das pessoas com deficiência. Em entrevista ao Vila Equilíbrio, falou das dicas práticas de como receber um amigo ou um profissional com deficiência em sua casa ou empresa ou de como adaptar o ambiente de maneira suave. Mas, mais do que isso, abriu os olhos para mostrar que a ‘nação invisível’ está bem debaixo dos nossos olhos.

Como a sua opinião sobre o tratamento dado à pessoas portadoras de deficiência no Brasil? O que é diferente hoje?

Já pelo termo ‘portadores de deficiência’ percebe-se que há uma intenção de encobrir ou disfarçar um assunto que deve ser tratado com mais objetividade. Não são portadoras de nada, elas tem uma deficiência (adquirida ou não), mas não podem portá-la ou deixá-la em casa conforme seu desejo. O termo pelo qual elas próprias preferem serem tratadas, que é a definição usada em todo o mundo, é "pessoa com deficiência". Mas percebi, na pesquisa, que a tendência até cultural de "não olhar", "não incomodar", "não apontar" consequentemente acaba ignorando e criando uma barreira até sem intenção com a relação a essa população. Perdem todos. Para se ter uma idéia como a sociedade enxerga essa população, basta conferir os decretos, que em plena década de 1960, designava-os como inválidos, defeituosos, incapazes, finalmente veio o politicamente correto, e usou-se especiais e portadores de deficiência ou necessidades especiais, que explicam muito pouco. É preciso encarar o assunto com mais objetividade e naturalidade.

No livro você dá dicas. Pode contar algumas, sobre como tratar pessoas portadoras de alguma deficiência, em casa ou no trabalho?

No livro, o leitor vai mergulhar num universo muito interessante, onde 30 milhões de pessoas vivem, trabalham, casam, têm filhos e educam filhos, lançando mão de soluções diferentes, alternativas e criativas que nós, sem deficiência aparente, deixamos de conhecer por estar limitados à zona de conforto. Na prática, é preciso adequar o espaço ou a ferramenta de trabalho para as necessidades específicas da pessoa em questão. Se você recebe alguém em cadeira de rodas é preciso que o local seja acessível, abrir os espaços, conferir os trajetos e jamais conversar em pé.

Quais as maiores dificuldades enfrentados pelas pessoas com deficiência?

Além da barreira de atitude - que deve ser desconstruída, a maior dificuldade são as barreiras físicas e arquitetônicas: muitíssimas escolas sem rampas e elevadores, prédios públicos idem, falta de banheiros acessíveis e falta de locais de lazer adaptados.

De onde nasceu a ideia do livro?

O livro surgiu por uma sugestão de Mara Gabrilli. E foi ela quem fez a consultoria do livro, que é resultado de um ano e meio de muitas entrevistas e pesquisas. Achei importante intercalar os assuntos abordados com histórias reais de entrevistados, para que o leitor conhecesse melhor esse universo.

Qual o papel do Estado com relação à inclusão social? E qual o papel da sociedade em geral?

O Estado é importante porque pode legislar e fiscalizar. Porém, cabe às pessoas individualmente alargarem a percepção e incorporarem uma nova atitude de inclusão. Brigar por detalhes! Sem isso, não haverá conquistas. É preciso vestir a camisa, ainda que não tenha caso algum de pessoa com deficiência na família. Melhorando a vida desses 30 milhões, estaremos melhorando toda a sociedade.

Quais as pequenas mudanças que as pessoas comuns podem fazer para garantir a inclusão das pessoas com deficiência?

O Síndico do prédio pode melhorar os acessos e elevadores do seu prédio. Os clubes e associações podem fazer os mesmos ajustes. A Diretora da Escola pode viabilizar os acessos as salas de aula. As pessoas em geral ajudariam muito se não estacionassem o veículo em vagas especiais.

Que futuro você enxerga para essa ‘nação invisível’? Como fazer para enxergá-los? A nação invisível está ficando visível através desta reflexão. Os legisladores estão viabilizando novas leis que permitem o acesso ao mercado de trabalho e às escolas. O comércio está criando novas opções de roupas e acessórios. No setor automotivo já estão em andamento várias adaptações para esses casos de mobilidade física. A arquitetura estuda e planeja novas opções de acessos e moradias. O próprio Governo do Estado (São Paulo) já lançou os projetos de moradias populares totalmente sob o conceito do ‘Desenho Universal’, que permite que toda a pessoa, com qualquer tipo de deficiência, possa habitá-la.

* A consultora que ajudou Claudia a fechar o livro é Mara Gabrilli. Primeira Secretária municipal da Pessoa com Deficiência e vereadora pelo PSDB na Câmara Municipal de São Paulo, ela é publicitária, psicóloga e preside ainda uma ong que apoia atletas com deficiência. Mara tem 41 anos e ficou tetraplégica em 1994 por causa de um acidente que quase lhe custou a vida.

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