Quando eu me encontrar...

Quando eu me encontrar

Acho que comecei a me perder quando estava no ginásio, ou pode ser antes, quando tudo que eu queria fazer ainda criança era interrompido com alguma justificativa que não valeria à pena continuar.

Quando adolescente sempre queria fazer algo que ajudasse as pessoas, mas minha família não apoiou e pensei que deviam estar certos, afinal sempre estavam. Enquanto eu agradava aos outros, sem ao certo saber sobre meus próprios sentimentos nem o que agradava a mim mesma, as coisas continuaram tranqüilas para todo mundo por alguns anos, até que, encontrei um rapaz que pensava ser ideal.

Quando, depois de uns quatro anos, olhei de frente o nosso relacionamento, percebi que eu era tudo quanto ele queria que eu fosse e nada do que eu era realmente. Sempre emotiva e cheia de sentimentos. Não conseguia separá-los ou identificá-los, sentindo uma angústia constante. Meu noivo me dizia que eu estava simplesmente louca ou alegre e eu concordava com ele e as coisas paravam por aí, sem questionamentos. Então, quando eu dei essa encarada em nosso relacionamento percebi que estava com raiva porque não estava seguindo minhas verdadeiras emoções, nem sabia quais eram.

Rompi esse relacionamento de forma digna e tentei descobrir onde estavam os pedaços que havia perdido. Passados alguns meses de psicoterapia, descobri que havia muito mais partes do que o que sabia fazer com elas e, aparentemente, não conseguia mais juntá-las. Comecei a descobrir partes de mim das quais não havia consciência. Algumas partes descobri que são muito boas para mim, mas nem sempre para outras pessoas. Aos poucos comecei a me sentir mais confiante e mais segura de mim mesma.

Lembro-me de uma noite em particular que sentia raiva. Sentia raiva porque queria falar sobre algo, mas não conseguia identificar o que era. Até que fiquei tão transtornada que fiquei assustada. Chorei algumas horas e os sentimentos afloraram. Tudo que sei é que saíram de mim tanta dor e tanta raiva como na realidade não poderia jamais imaginar que existissem. Parecia que um estranho havia tomado conta de mim e que eu estava tendo alucinações. Continuei assim, até que depois de uns dias, estava sentada, pensando, e percebi que esse estranho era o eu que eu estava tentando encontrar.

A partir daquela noite, percebi que as pessoas não mais pareciam estranhas para mim. Agora tenho impressão de que a vida está apenas no início para mim. Nesse momento estou sozinha, mas não estou assustada e não tenho que estar fazendo algo, como sempre me cobravam. Gosto de estar comigo mesma e de me tornar amiga de meus pensamentos e sentimentos. Por causa disso, aprendi a respeitar as outras pessoas.

Há um senhor, muito doente, que me faz sentir muito viva. Ele aceita todos. Disse-me, outro dia, que eu mudei muito. De acordo com ele, eu comecei a me abrir e a me amar. Penso que sempre amei as pessoas e contei isso a ele, que me disse: será que elas percebiam isso? Não acredito que expressasse meu amor mais do que o fazia com a dor e com a raiva. Parece que recebemos mais atenção quando não estamos bem.

Entre outras coisas, estou descobrindo que nunca senti tanto respeito por mim mesma. E agora que estou realmente aprendendo a gostar de mim, estou finalmente encontrando paz interior .

Muitas pessoas podem se identificar com alguns trechos dessa pequena história. Apesar de ser difícil enfrentar sentimentos profundos porque sabemos da dor que esse confronto irá causar, ainda é a maneira mais eficaz de se libertar dessa dor. Quando conseguimos olhar para dentro de nós, passamos a aceitar as partes negativas e confiamos que somos capazes de mudar uma por uma e valorizamos mais as positivas, colocando um ponto final no sofrimento que dilacera a alma.

Mas, como se encontrar? Dando atenção aos seus sentimentos, às suas angústias, aos seus medos, suas dúvidas, seu sofrimento; sem fugas, sem atalhos, sem desculpas que apenas fazem com que permaneça no mesmo lugar. Apenas dando a si mesma: colo, carinho, respeito, compreensão e uma vontade imensa de encontrar a parte perdida de você!

Uma música que reflete sobre isso é Preciso me encontrar , do Cartola, gravada por Marisa Monte. Segue a letra abaixo para sua reflexão:

"Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar." Quando eu me encontrar    

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