Esquizofrênico lança livro em São Paulo

Na obra, Jorge Cândido de Assis conta a própria experiência de enlouquecer

Esquizofrênico lança livro em São Paulo

Em uma manhã de domingo, Jorge Cândido de Assis, então com 21 anos, foi à estação Liberdade do metrô, em São Paulo, e ouviu uma voz que lhe recomendou: por que você não se mata? Seguiu o conselho e se jogou em frente ao trem. Na ocasião, em 1983, ele acordou no hospital três dias depois do acidente sem a perna direita.

O que poderia ter sido uma tragédia teve como origem os primeiros sinais de uma doença incurável e bastante discriminada pela sociedade: a esquizofrenia, um dos mistérios da medicina e com a cura longe de ser descoberta.

A enfermidade geralmente instala-se na fase adolescência ou no início da fase adulta, e leva o paciente a ter dificuldade de distinguir a realidade da fantasia, o que aumenta proporcionalmente com a manifestação da doença na fase aguda.

Foi justamente nessa fase que Jorge descobriu a doença, quando chegou em casa e ela havia sido arrombada. A ida à delegacia para dar queixa e reconhecer os objetos furtados desencadeou a segunda crise psicótica, e ele passou a ter delírios de grandeza, alucinação e mania de perseguição.

"Fui internado em Itapira durante um mês. Saí de lá com diagnóstico de esquizofrenia, medicado, mas sem encaminhamento. Um dos remédios causava enrijecimento da musculatura e eu não conseguia escrever. Então parei de tomar a medicação e comecei a fazer tratamento em centro espírita.", lembra Jorge. Segundo ele, depois das crises é preciso renascer das cinzas. "Muitas pessoas desistem. Precisa de uma grande dose de esforço para reconstruir a vida.", afirma.

Entre a razão e a ilusão

Hoje, aos 49 anos, quase 30 anos depois e depois de cinco crises psicóticas, ele dá aulas em um curso de psiquiatria e acaba de lançar o livro "Entre a Razão e a Ilusão", da Artmed Editora, escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp. Na obra, ele descreve a experiência de enlouquecer.

O projeto do livro surgiu, em 2007, para tratar sobre direitos de pacientes com esquizofrenia. O processo de criação durou 18 meses, quando o psiquiatra Rodrigo o convidou para deixar de ser paciente e entrar para a equipe de criação. Na ocasião, Jorge participava de um grupo de pacientes com esquizofrenia em que discutia a doença, as vivências e as formas de comunicação.

Entenda o assunto

A esquizofrenia é uma doença complexa, ainda sem cura e os especialistas não sabem ao certo as causas. Estima-se que cerca de 1% da população mundial, ou seja, 67 milhões de pessoas sofrem com os embates causados por um dos distúrbios mentais, entre eles alucinações, delírios, incoerência, comportamento caótico e apatia. Especialistas afirmam que a presença da família e a informação sobre a doença são fundamentais no tratamento do esquizofrênico, que não é agressivo como muita gente pensa.

"A esquizofrenia é uma doença crônica, que afeta as emoções, os relacionamentos e as vontades. O estigma é muito prejudicial e ser apontado como o louco ou desacreditado só piora. Tenho sorte de ter uma família unida, que me apoia. Isso dá sentido à minha vida", conclui Jorge. Após o lançamento do livro, a meta dele agora é construir uma rede de associações de apoio a pacientes com esquizofrenia.


Por Natália Farah

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