Manias incontroláveis podem ser Transtorno Obsessivo Compulsivo

Manias incontroláveis podem ser Transtorno Obsessi

Verificar várias vezes se a roupa que deixou no guarda-roupa está do mesmo jeito, lavar as mãos seguidamente, se preocupar excessivamente com a limpeza da casa, nunca deixar um chinelo virado...

Esses e outros comportamentos semelhantes podem, na verdade, constituir sintomas do chamado Transtorno Obsessivo Compulsivo ou TOC.

Segundo pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, estima-se que entre 2 e 3% da população mundial tenham a doença, que costuma afetar membros da mesma família.

"O TOC é um transtorno que tem base neurobiológica, ou seja, acontecem alterações no funcionamento cerebral. Pode ser que níveis insuficientes de serotonina estejam envolvidos de

maneira preponderante no surgimento dos sintomas, mas apenas estudos genéticos poderão definir algum dia os genes que predispõem o aparecimento deste grave problema", explica a psiquiatra Ana Gabriela Hounie, vice-coordenadora do Projeto Transtorno do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O paciente com TOC sofre com medos, pensamentos irracionais e repete atos. "A principal característica da doença é a presença de obsessões: imagens, impulsos ou pensamentos que invadem a mente e que são acompanhados de ansiedade ou desconforto", explica a especialista.

A veterinária Carina Montanha, de 37 anos, sofre da doença desde os oito. "Quando era mais nova, costumava arrumar gavetas, armários, livros e sempre me achei uma pessoa organizada. Nunca passou pela minha cabeça que eu fosse uma pessoa doente. Com o tempo, passei a seguir um ritual para limpar meu quarto, que demorava quatro horas. Isso passou a me incomodar, mas não sabia exatamente o que estava acontecendo até que depois de adulta procurei ajuda", conta ela.

A história de Carmem Fontes não é muito diferente. "Eu não dormia sem estar com o mesmo pijama todas as noites. Achava que, se eu não o colocasse, algo de ruim aconteceria na minha vida. Também passava cinco vezes o xampu nos cabelos. Me consultei com psicólogos e psiquiatras até chegar ao diagnóstico de Transtorno Obsessivo Compulsivo", afirma.

Segundo especialistas, essas obsessões geradas por pensamentos estranhos são ações criadas pelo doente para "trazer alívio". A psiquiatra Ana Hounie diz que o paciente tenta "'neutralizar"' a situação de mal-estar com um comportamento diferente, que não faz sentido para os outros.

Geralmente, os primeiros sintomas aparecem por volta dos 14 ou 15 anos de idade nos pacientes do sexo masculino e na faixa dos 25 aos 35 anos no feminino. Porém, o Transtorno Obsessivo Compulsivo também pode ter início na infância.

O primeiro passo para a pessoa vencer a doença é aceitar que algo está errado. "A pessoa que sofre de TOC tem vergonha das suas atitudes e angústias. Isso acaba se tornando um incômodo. É essencial ter compreensão, principalmente dentro de casa para superar", diz Ana Hounie.

Atualmente, a maneira mais eficaz de controlar o mal é com o consumo de antidepressivos - que elevam os níveis de serotonina -, terapia comportamental ou cognitiva, psicoeducação e apoio familiar. "Esses recursos atenuam os sintomas, mas a melhora tende a ser demorada. Não podemos dizer que há cura. É uma questão de tratamento e controle. Se a pessoa se controla, melhora. Caso contrário, não", avisa a psiquiatra.

Famosos que sofrem de TOC

O cantor Roberto Carlos costumava entrar e sair de um ambiente sempre pela mesma porta, não usava roupas da cor marrom e nem assinava contratos na fase minguante da Lua. Com tratamentos, o cantor passou a se sentir melhor.

Luciana Vendramini sofre do mesmo distúrbio. A atriz criou "rituais" para começar bem o dia, tomar banho e comer. Em razão das suas manias, ela já ficou horas debaixo do chuveiro. A doença também foi controlada por meio de tratamento especializado.

O apresentador Jô Soares confessou recentemente em seu programa que sofre de TOC. Aos 69 anos, Jô afirma que contraiu a doença com a idade e, atualmente, todos os quadros da casa dele têm de estar levemente tombados para a direita.

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