O drama da esquizofrenia

O drama da esquizofrenia

Filme "O Solista". Foto: François Duhamel/ Universal.

Viver uma realidade que não lhe pertence é o maior drama do esquizofrênico. No filme "O Solista", que estreou no último final de semana em circuito nacional, a história real do músico Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), é esmiuçada sob a ótica do jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr), de Los Angeles que, ao tentar salvá-lo, acaba mesmo se salvando.

O filme chama a atenção para uma doença que atinge toda a família e que a sociedade, infelizmente, não está preparada para conviver.

A esquizofrenia é uma doença mental grave que acomete pelo menos 1% da população mundial e tem por principal característica a desordem na habilidade de pensar de forma clara, de relacionar-se com outras pessoas e distinguir realidade de imaginação. Os sintomas costumam se manifestar no fim da adolescência, mas nas mulheres aparece um pouco mais tarde.

"Existem muitos preconceitos em relação à doença, mas quanto mais tardio é o diagnóstico, mais difícil o controle. Ainda é comum a esquizofrenia ser confundida com crise de adolescente, depressão ou esquisitice passageira", alerta o psiquiatra Mauro Louzã, coordenador do projeto Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Entre as características da doença está o isolamento e as dificuldades com a vida social em geral. "É possível que o doente passe a ter um comportamento excêntrico, usar roupas inadequadas, sair vagando pelas ruas ou descuidar-se da higiene e dos cuidados pessoais", completa o médico.

A família, que também sofre com a doença, é fundamental para seu tratamento, já que o portador em geral não percebe seu estado e não associa suas atitudes à doença. "Como os sintomas são muito reais, dificilmente ele se convence que precisa ser tratado e essa é a grande dificuldade da doença", afirma Rodrigo Bressam, professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Por isso, o conhecimento dos familiares e amigos sobre a condição é fundamental. E, mais do que isso, é dessas pessoas próximas o desafio de garantir a adesão do paciente ao tratamento, que obrigatoriamente precisa de medicamentos.

Bressam afirma que os tratamentos com remédios, somados às terapias, podem fazer com que o paciente tenha sim uma vida normal. "É importante frisar que essa alteração na forma de ver o mundo ou o sentimento de perseguição não são constantes na vida do esquizofrênico e aparecem nas fases agudas da doença, durante as crises", pontua Bressam. O tratamento visa a controlar os sintomas e prevenir novos surtos. Esses surtos, segundo evidências de estudos, estão associados à maior atrofia de certas regiões cerebrais e à progressão da doença.

"Auxiliar os pacientes a melhorarem sua vida e diminuir os efeitos da doença é um dos maiores objetivos no tratamento da esquizofrenia", afirma Riad Dirani, diretor de resultados de pesquisas da Janssen-Cilag, que fabrica medicamentos para esquizofrenia. "Os resultados das análises sugerem que a terapia de longa duração pode reduzir a necessidade de hospitalização e melhorar o acompanhamento diário dos cuidadores entre pacientes com histórico médico complexo". Hoje a falha na adesão ao tratamento aumenta a chance de recaída e o agravamento das circunstâncias.

No filme, Lopez faz de tudo para ajudar o jovem músico a reencontrar seu caminho, mas não consegue que ele procure o tratamento necessário, com medicação e terapia. No mundo de cores e música de Nathaniel, há muito que o novo amigo não entende. O que ele aprendeu, no meio da amizade, é o que todos que cercam esse tipo de paciente precisam aprender: é preciso acreditar sem cobrar nada em troca.

Comente

Últimas